Trecho da Carta de Júlio Cortázar a Octavio Paz pelo lançamento de O arco e a lira.

 Octavio, acredito que você mostrou em seu livro o que me parece ser a característica mais profunda do pensador, do ensaísta latino-americano – e muito especialmente do mexicano e do argentino. Estou me referindo à possibilidade que nos foi dada (e que ainda exercitamos pouco) de conhecer e explorar um assunto por todos os seus ângulos, sem a redução inevitável a um modo de pensar, a uma cultura dada, que é o signo fatal dos trabalhadores europeus.

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Os sinos de Encarnação, de Angela Gutiérrez

ANGELA GUTIERRES

As terras onde não se ouve a pancada do mar, só as conheci de verdade – não apenas de ver, mas de viver -, nas páginas de narradores do sertão e dos gerais. Quem viajar pelas pequenas histórias que se seguem encontrará viventes que brotaram pelas serras, às margens dos rios, em pequenas vilas, nas minhas terras de dentro.  (2012, p.5).

Os sinos de Encarnação nos convida a adentrar nas terras de dentro da Angela Gutiérrez… Logo no início, Angela desculpa-se por não ter a vivência do interior, mas afirma que seu sertão foi apreendido pela mesma através dos livros. E é através do seu livro que também iremos apreender esse universo interiorano construído pela autora. O livro é composto por vinte pequenos contos que são costurados e bordados em uma grande colcha por Encarnação. Suas histórias são interligadas como se estivéssemos ouvindo-as ao redor de uma fogueira como eram costumes antigos. A leitura do mesmo encheu meus dias de poesia, leveza e fortes sentimentos.

Os contos que unem as histórias são As Cartas de Mabel e As Histórias que Mabel não podia contar. Neles conhecemos Mabel, uma mulher curiosa que adora escrever cartas acerca das histórias que escuta pela sua cidade. Mabel será uma especie de contadora de história que ao final do livro fará o arremate com todos os contos. Outra figura de igual importância já citada anteriormente é Encarnação. A andarilha fará a caminhada juntamente conosco para que possamos apreender tudo o que nos será contado. As duas figuras fazem o papel de bordadeiras, costurando e bordando os contos para que juntos formem o relato de um povo.

O conto que dá título ao livro nos conta a história de Encarnação. Os sinos representam os acontecimentos mais importantes do povoado. É o chamado aos homens para saírem em comissão para levar ajuda, palavras de consolo. A moça passa a acompanhar o cortejo quando seu pai tinha morrido e seu irmão mais velho fora se embora da cidade. Logo no primeiro conto, a moça conhece um rapaz que será seu noivo, mas para seu desalento, o rapaz morre assassinado antes do casamento. O acontecimento permite a menina continuar seu trabalho de eremita. A figura de Encarnação passa a ser como uma espécie de Nossa Senhora que leva esperança e consolo aos precisados e conselhos aos desesperados. em praticamente todos os contos, Encarnação surge nos mostrando as ligações e costuras.

Os contos relembram ao leitor nordestino algumas festas de santos que representam ao povo interiorano as únicas festas realizadas na região. Em Malhação de Judas, revivemos a festa onde como bons cristãos nos vingamos de Judas, traidor de Jesus. A metáfora entre a malhação do boneco e a morte de um primo nos faz rever pontos de vista em cada história. Principalmente ao conhecermos João, personagem principal de Céu de Carneirinho, onde conhecemos o outro lado da história da malhação de Judas. Outras ligações entre os contos deixo para o leitor mais atento descobrir…

Os contos que vi maior beleza foram Os Azeite de Quirina e Café Donzelo, onde a linguagem popular misturada a poesia me levou a admirar o estilo de escrita dessa escritora. A beleza das palavras e da forma como suas histórias são construídas nos levam a viajar para os vilarejos. O primeiro conto nos fala de um casal que vive uma situação muito comum. O casamento já faz tanto tempo que o casal já não mostram sua paixão um pelo outro. Mas será que não há mais amor? O segundo conto nos fala de um garotinho que resolve fazer algo diferente das demais pessoas da comunidade. Mas seus conterrâneos não vêem isso com bons olhos… Mas a imaginação do garoto o salva dos julgamentos.

 

E Quirina tinha que ficar esperando. E eu ia botar um cadeado nela e levava a chave comigo. A Quirina era muito cheia de fogo! E eu era cheio de fogo também. A Quirina, eu chamava a quirina de meu bem. E ela me dizia no meu ouvido: meu home. Até hoje eu me arrupio. Meu home! E a gente dormia numa rede só, juntinho. (2012, p.92)

… depois percebia que voava, voava para outro lugar, um lugar onde se podia tomar café donzelo feito pela avó e ninguém ia reclamar. Um lugar onde não tinha pai, um lugar onde tinha a mãe que ele nunca conheceu. (2012, p. 105)

 

A escrita de Angela Gutiérrez é recheada de expressões próprias do interior nordestino, mas percebe-se também que algumas são criações da mente imaginativa da autora. A leveza e a poesia contida na sua linguagem nos faz viajar pelo seu universo e desejar estar lá nem que seja por alguns poucos minutos. A leveza apresentada por sua escrita nos surpreende principalmente no conto A Bruxinha da Naninha, onde a autora narra uma cena de tentativa de abuso de uma criança, cenas infelizmente tão comuns no Nordeste Brasileiro, com uma linguagem tão poética, tão bela que o leitor não chocasse tanto, mas ao mesmo tempo, choca-se com a naturalidade exposta na cena.

A pintura N. Sra. do Ó ,vista abaixo compõe a capa do livro e é do pintor José dos Reis Carvalho. Podemos ver a referência aos sinos que chamavam Encarnação a caminhar e a religiosidade tão marcante no livro.

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Autora

Angela Maria Rossas Mota de Gutiérrez nasceu no casarão de seu bisavô, Tomás Pompeu, em Fortaleza e aqui sempre viveu.  Construiu sua carreira acadêmica na Universidade Federal do Ceará. Atualmente é membro da Academia Cearense de Letras desde 1997. Suas obras publicadas foram: O Mundo de Flora (romance, 1990), Canção de Menina (poesia, 1997), Avis Rara (narrativas, 2001), Luzes de Paris e o fogo de Canudos (romance, 2006) e o mais atual Os sinos de Encarnação (contos, 2012).

Seda, de Alessandro Baricco

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Seda, de Alessandro Baricco foi uma experiência eminentemente estética. Cada espaço em branco em volta do texto queria dizer algo mais que somente as palavras do autor. Cada linha lida nos mostrava um novo aspecto ou confirmava aspectos já percebidos. Conhecer a obra foi passear por entre as sedas…
Inicialmente, Hervé Joncour nos parece ser nosso guia pelas sedas… Conhecemos sua vida e seu silêncio, descobrimos seu trabalho. Sua inércia chega a nos agitar, sensação oposta a que o personagem parece assumir diante da vida. E o silêncio durará?
Um convite leva-nos junto a Hervé para o Japão. Lá conhecemos os mais belos olhos de menina… Hervé se encanta… O olhar da jovem parece hipnotizá-lo… Ele cumpre a missão. Mas esquecerá aqueles olhos? Hervé volta para casa e não consegue esquecer aquele olhar, nem nós…
“A menina ergueu ligeiramente a cabeça. Pela primeira vez afastou os olhos de Hervé Joncour e os pousou na xícara. Lentamente, girou-a até que seus lábios estivessem precisamente sobre o ponto em que ele bebera. Entreabrindo os olhos, tomou um gole de chá. Afastou a xícara dos lábios. Tornou a pô-la onde a recolhera. Sua mão desapareceu sob o vestido. Voltou a apoiar a cabeça no colo de Hara Kei. Os olhos abertos, fixos nos de Hervé Joncour.” (p.33).
Enfim vemos Hélène. Esposa do protagonista. A Seda mais suave exposta no livro. Cada palavra sua apresenta-se ao leitor como um carinho. Sua suavidade embala o marido e aquece-nos. O leitor desatento pensa ser a menina japonesa a melhor seda, mas aos meus olhos Hélène é a seda mais suave e também nossa guia pelas sedas…
“Hervé Joncour iniciou os preparativos, e no começo de outubro estava pronto para partir. Hélène, como todo ano, ajudou-o, sem nada perguntar, e escondendo sua inquietação. Só na última noite, depois de apagar a luz, encontrou força para lhe dizer:
 — Prometa-me que voltará. 
Com voz firme, sem doçura.
 — Prometa-me que voltará. No escuro, Hervé Joncour respondeu:
 — Prometo.” (p. 80, 81).
“No primeiro domingo de abril — a tempo para a missa solene — alcançou as portas de Lavilledieu. Viu a mulher, Hélène, correr ao seu encontro, e sentiu o perfume de sua pele quando a abraçou, e o veludo de sua voz quando ela disse:
 — Você voltou. Suavemente.
 — Você voltou.” (p. 51).
A escrita de Alessandro também nos faz um leve toque… Ela é poética, meiga e muito sensual. Cada palavra nos envolve como um tecido de seda acaricia a pele nua… Seu toque é suave, nos mostra carinho, mas há no fim um leve arrepio que nos deixa excitados de uma maneira tão leve…
Dificilmente conseguirei passar a sensação sentida na leitura do livro, por isso escolhi a brevidade do escrito. Mas quem sabe essa mesma brevidade não vos pareça também como um toque de seda…
Autor
Nasceu em 1958, em Turim. É considerado um dos principais escritores contemporâneos da Itália. Escreveu os romances Mundos de vidro; Oceano mar; City; Sem sangue e Esta história, livros de ensaios e peças teatrais (como o monólogo Novecentos, adaptado para o cinema por Giuseppe Tornatore).  Baricco recebeu, na França, o prêmio Médicis Étranger e, na Itália, o Selezione Campiello Viareggio e o Palazzo al Bosco.

 

Entrevista de Antonio Prata a Yasmin Taketani

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Entrevista de Antonio Prata a jornalista Yasmin Taketani do jornal Rascunho de fev/2014.

“Na entrevista a seguir, Antonio Prata, nascido em 1977, vencedor do Prêmio Brasília de Literatura em 2012 com Meio intelectual, meio de esquerda (Editora 34), discute o novo livro, a infância (“o pior período da vida”) e a importância da literatura num mundo “profissionalizado” e comentado demais.

Sua primeira crônica, escrita aos 14 anos, fez sua mãe chorar: era sobre a demolição da casa da sua família. Hoje, no entanto, o humor parece estar sempre presente nas suas crônicas, mesmo as que abordam assuntos mais sérios ou de viés nostálgico. Por que enveredou pelo humor? Ele é uma das suas marcas ou é elemento imprescindível à crônica literária em geral?
Não acho que toda crônica tenha que pender pro humor. As maiores crônicas do Rubem Braga são mais líricas do que engraçadas (embora uma pitada de humor sempre esteja lá — como, aliás, em qualquer coisa feita com inteligência). Eu pendo mais pro cômico, sim. Acho que todo comediante é antes de tudo um covarde. Você não tem coragem de enfrentar o mundo de frente, então enfrenta de lado, que é como o humor se relaciona com a matéria. O humor seria, portanto, uma espécie de ressentimento que não se ressente. Talvez a covardia seja genética (nas minhas primeiras memórias, pelo menos, já estou assustado…), mas acho que teve algo do contexto em que cresci que favoreceu a minha enveredada pelo humor. Eu estudei, da primeira à sexta série, na escola da minha avó. A classe era, portanto, uma extensão da minha casa. Isso é bem ruim se você tem sete, oito, nove anos, porque a escola deve ser um lugar onde seus pais não estão te vendo, um território livre. Pra mim, não era. Eu tinha que ser um bom menino, porque tudo chegava direto nos meus pais, mas queria ficar amigo dos outros garotos também, sem ser o caxias da turma. Pra conseguir fazer o jogo da obediência e da subversão ao mesmo tempo, ou eu virava psicótico ou fazia piada — ocupava dois lugares sem ocupar nenhum, que é o que o humor faz. Não levava muito a sério nem a obediência nem a desobediência. Fico feliz por ter enveredado pelo segundo caminho. (E esses dois elefantes cor-de-rosa que me acompanham aonde quer que eu vá sempre dizem que foi mesmo a melhor opção.)

Nu, de botas não é bem conto nem crônica, nem uma novela ou um livro de memórias, mas tem elementos de todos esses gêneros: leveza, humor e lirismo da crônica, com pitadas de ficção e base na memória. Como nasceu o livro? Quais foram as dificuldades e prazeres em revisitar, retratar e por vezes ficcionalizar fatos e personagens da infância?
O livro nasceu a partir de um trabalho que fiz em 2003. Fui chamado para escrever um livro institucional da escola onde estudei dos dois aos cinco anos, a Escola Viva. Pra isso, voltei ao colégio e assisti a aulas com as crianças por várias semanas. Ali me voltaram muitas memórias. Fui anotando, escrevendo aos poucos, até que vi que tinha um livro. As dificuldades foram aquelas de todo livro: fazer as histórias ficarem legais, achar o tom e burilar o texto. Embora a maioria dos textos tenha nascido de memórias, trato o livro como ficção. Como achar que um texto feito aos 36 sobre uma memória dos três anos de idade possa ser outra coisa?

Li o seguinte comentário sobre o livro: “Ganhei a infância que perdi”. Que característica de ser criança você lamenta ter perdido, ou acha que deveríamos tentar preservar?
Olha, fiquei feliz com esse comentário, mas não queria ganhar a infância que perdi, não. Tenho cá pra mim que a infância é o pior período da vida. Uma eternidade em que não temos nenhuma autonomia, não entendemos como o mundo funciona, sofremos pra burro pra aprender as coisas mais básicas. Você não escolhe o que vai comer: senta pra almoçar e descobre que tem sopa de espinafre; depois vai pra escola e te mandam colar umas sucatas quando você tava mais a fim de brincar no tanquinho de areia; à noite, deita pra dormir e tem certeza absoluta de que tem um monstro embaixo da cama. Na adolescência melhora um pouco, mas não muito. Bom mesmo é ser adulto.

Como foi escrever o livro sem o prazo semanal do jornal ou o limite de caracteres, sabendo que os textos seriam lidos em conjunto?
O problema não é a falta de prazo ou o tamanho, é ter um monte de outros trabalhos que me tomam o tempo: crônicas pra Folha, roteiros pra Globo e outros projetos que aparecem. Tenho que pegar aquelas horas que seriam pro lazer e dedicar ao livro. Ou aproveitar raras janelas em que não tinha nada na Globo e me concentrar no Nu, de botas. Mas foi assim a vida toda, a dificuldade de conciliar os trabalhos. Por outro lado, uma coisa alimenta a outra. Os roteiros me ensinam mais sobre a criação de histórias, as crônicas me dão mais experiência no humor ou em diálogos e, claro, o trabalho pago patrocina o não pago.

• E como é sua rotina de trabalho?
É chata como a de qualquer trabalhador. A única diferença é que a distância entre a cama e o escritório é de quatro metros. Acordo, tomo banho, tomo café, sento no computador; depois almoço, volto pro computador e assim vou até o final da tarde ou até acabar a tarefa daquele dia. Nesse processo, bebo mais litros de Coca-cola Zero do que a Organização Mundial de Saúde acharia saudável.

Um clássico elogio ao cronista é o título de “observador atento do cotidiano”. A experiência do cotidiano está no Twitter e Facebook tanto quanto nas ruas? Ainda é necessário “andar na rua, comer pão na chapa, ouvir as conversas em torno” — palavras de Humberto Werneck?
Algum cronista carioca (ou mineiro radicado no Rio) disse certa vez que era impossível fazer crônica em São Paulo, porque a crônica era um “gênero a pé”. (Não sei quem disse isso, li há muito tempo, cito de memória.) Eu discordo. Existe condição mais propícia à flânerie mental do que uma hora parado na Avenida Rebouças, assistindo àquela parcela enlatada da humanidade rosnar suas buzinas, falar em seus celulares, querendo matar uns aos outros com seus carros? Outro dia o Ruy Castro escreveu uma ótima crônica dizendo que Dorival Caymmi não sabia nadar — e, no entanto, quem teve mais intimidade com o mar? Ou seja, o mundo está em toda parte, na padaria, na internet, dentro da nossa cabeça, quando estamos num elevador no quarto subsolo de um shopping center. É claro que um escritor precisa ser um observador atento, mas se ele conhecesse uma pessoa só na vida e escrevesse bem sobre essa pessoa, descreveria a humanidade.

Quais autores foram fundamentais para sua formação de escritor/leitor?
Para começar pela infância: João Carlos Marinho, Ruth Rocha, Lygia Bojunga Nunes, Hergé, Goscinny & Uderzo, Maurício de Souza. Depois: Campos de Carvalho, Cortázar, Drummond, Millôr, Verissimo, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Kurt Vonnegut, Nietzsche, David Sedaris.

Você publica crônicas na imprensa desde o início dos anos 2000, seus leitores já identificam seu tom, estão habituados, fidelizados. Houve um momento em que sentiu que estava se repetindo ou preso a uma fórmula?
Olha, eu não acho que os leitores estão “fidelizados”. Até porque eu mudei de veículo e de público mais de uma vez. De 2001 a 2008 escrevi para meninas, na Capricho. De 2003 a 2009 escrevi noEstadão, e de lá pra cá, na Folha. Mas é verdade, sim, que de uns anos pra cá tem mais gente me lendo. Fico feliz com isso — embora ficasse bem mais feliz se tivesse um público como o do Paulo Coelho ou da J.K. Roling e pudesse comprar um apartamento em Paris e outro em Nova York e uma casa na Bahia e me dedicar totalmente à escrita, à leitura dos clássicos e à degustação de cervejas artesanais. Sobre repetir a fórmula: espero que não. Embora uma coisa seja estilo e outra seja repetição. Quando vou ler um conto do Cortázar, um romance do Kurt Vonnegut ou uma crônica do Rubem Braga, torço para encontrar lá aqueles escritores que eu tanto admiro. Isso não é ruim, necessariamente. Agora, como cronista, é inevitável ter semanas ruins. Meu consolo é pensar que só o melhor sairá em livro. Minha angústia é saber que hoje está tudo na rede, pra sempre (ou, pelo menos, até a próxima hecatombe nuclear ou até o choque de um asteróide contra a Terra). O que a gente lê do Rubem Braga hoje em dia é exclusivamente o que ele publicou em livro, que deve ser uns 10% do que ele escreveu.

O que é este melhor da sua produção, que vale ser publicado em livro? Ou: o que é uma boa crônica?
Nem sempre uma boa crônica pode ser publicada em livro. Ela pode tratar de um assunto muito específico que perde o sentido no futuro e o cronista não pode se furtar a tratar desses assuntos por querer a POSTERIDADE. Não sei bem explicar o que é uma boa crônica, como não saberia dizer o que é um bom romance ou um bom poema. Há tanta diversidade dentro de cada gênero, né? Vai aqui uma tentativa (mas que, de forma alguma, encerra o assunto): uma boa crônica é aquela que parece que não tá falando nada e tá dizendo tudo.

A crônica literária seria um contraponto necessário aos tempos atuais, por não ter a obrigação de informar ou esclarecer, por ser um texto que tem graça e lirismo? Ou ela pode incomodar, fazer o leitor se questionar? Até onde deve ir a “gratuidade” associada ao gênero?
Acho que há algo de anacrônico na crônica (com trocadilho, por favor). O mundo profissionalizou-se muito nas últimas décadas. As comidas têm tabelas nutricionais, os pais fazem gráficos e planilhas pra dar papinha pras crianças, até pra jogar peteca o sujeito consulta um personal trainer — qual o alongamento correto? Como otimizar a petecada com a canhota? Riscos e lesões comuns e como evitá-los… Os jornais seguiram esse movimento e a várzea onde crescia a crônica foi ocupada por especialistas, comentadores profissionais. Por isso, acho que a crônica, como a literatura em geral, é ainda mais importante hoje do que antes. Pra tirar as pessoas do trabalho. Pra fazê-las olhar um pouco pro lado e pra dentro. Pra distrair, até. Quanto a ela ter de ser leve ou poder incomodar: pode incomodar, se o cronista quiser, mas o mundo já é tão incômodo que eu prefiro fazer almofadas do que tachinhas.

A leveza e o tom de conversa da crônica literária podem dar a impressão de facilidade. Como é “forjar” essas características?
É trabalhoso. Só polindo a gente consegue uma superfície lisa. Mas isso é igual em todos os gêneros: seja para se criar suspense, riso, angústia, o escritor sempre terá que burilar sua escrita. Diante de escritores, as pessoas sempre querem saber “de onde vêm as idéias”. As idéias não são o problema. Todo mundo tem zilhões de idéias que dariam ótimos romances, filmes, crônicas. O duro é pôr de pé. É achar o tom. É não repetir a palavra “que” seis vezes no mesmo parágrafo — e, tirados os “quês”, manter o ritmo que havia antes.

Você se coloca como narrador de suas crônicas no jornal ou considera-o um personagem?
Ambos. Eu faço as crônicas em primeira pessoa, mas essa primeira pessoa aí é um narrador inventado ou, vá lá, adaptado. Eu não penso ou ajo necessariamente como eu penso ou ajo nas crônicas. Ali o narrador vai pro lado que for mais divertido, se a intenção for fazer rir, ou mais lírico, se esse for o viés. Claro que, num texto opinativo sobre, sei lá, aborto, eu não tomarei tal liberdade: aí sou eu mesmo e penso aquilo mesmo. Mas esses textos opinativos — que eu raramente escrevo — não são crônicas. São colunas. Opiniões. Crônica é outra coisa. Muitas das que escrevo, aliás, são ficção do começo ao fim. Eu digo que estava num parque e encontrei um amigo que estava se separando: isso é inventado. Às vezes as pessoas se surpreendem ao ouvir isso. Acho que o fato de a crônica sair no jornal ajuda na confusão. Pensa-se que o que se escreve num jornal é verdadeiro, até na crônica. Agora, mesmo quando faço crônica sobre um fato acontecido, acho que é ficção, pois se trata de uma elaboração em cima de um acontecimento, trata-se de uma fabulação. O próprio recorte, o que eu chamo de “um acontecimento” já é uma elaboração literária, uma edição da realidade.

Recentemente, numa entrevista ao Rascunho, Xico Sá reclamou da falta de humor na literatura brasileira. Você concorda? O humor é considerado “menor”, como ainda acontece com a crônica?
Olha, o humor e a crônica são considerados “menores” por meia dúzia de almas bolorentas que acham que o que dói é mais valioso do que o que não dói. É uma espécie de masoquismo estético. Mas a maioria das pessoas, as que lêem as crônicas ou riem de textos engraçados (como os excelentes textos do meu querido amigo Xico Sá) não tão nem aí pra esses conceitos de maior, menor, mais nobre, menos nobre, elas querem é um texto bom pra ler.

Justamente: há autores que só escrevem movidos pela dor, ou por um tema que lhes é muito caro; outros querem se reinventar a cada livro e desejam que sua literatura desestabilize o outro. O que move sua criação, o que espera da literatura e o que deseja causar no leitor?
No caso da crônica, a resposta é fácil, o que a move é o prazo. E vou te dizer, não existe motor melhor que esse… No caso de textos que escrevo sem destino certo, não sei explicar o que me move. É uma comichão, uma vontade de contar uma história que surge de repente. É como se aquela história quisesse muitíssimo vir ao mundo e eu tenho que ajudá-la nesse caminho. Por que essa história quer vir ao mundo e por que exatamente daquele jeito, só as tomografias computadorizadas de 2076 poderão dizer. Ou nem elas.

E antes de escrever você já sabe se a história será conto, crônica ou romance? Aliás, você terminou recentemente um romance, seu primeiro, não? O que o leva a transitar por estes gêneros? Qual deles o realiza mais como escritor?
As idéias geralmente já vêm no escaninho certo. Romance eu nunca escrevi, só conto, crônica e roteiro. (Escrevi boa parte de um romance, mas não tava ficando legal, abandonei. Uma hora dessas irei retomar.) Todos os gêneros me agradam, cada um a sua maneira.

O que não estava dando certo nesse romance? Xico Sá disse que se preocupava com a possibilidade de estar sendo cronista também no romance, quando escreveu Big Jato. Isso aconteceu com você?
Não foi bem esse o problema. Ele não estava soando como crônica, mas como um romance escrito por outra pessoa. O tom de romance eu achei, não achei foi o tom do MEU romance. Aí, depois de 200 páginas escritas, percebi que era melhor deixar de lado. Como se diz na culinária, “reservar”. E ali está, aguardando um bom refogado pra voltar à panela. (Ou não, como dizia o poeta.)

A opinião dos leitores, que chega a você semanalmente, a cada crônica, influencia sua escrita? A internet está mudando o modo como as pessoas lêem e respondem a um texto?
Eu espero que não influencie. Quem escreve para um cronista ou comenta na internet está entre os 10% que adoraram e os 10% que detestaram. Oitenta por cento das opiniões não são computadas aí. Ou seja, se deixar levar pelas opiniões vai te dar uma impressão errada de como você é lido. Agora, tenho curiosidade, claro, de ver que crônicas agradam ou desagradam. Muitas vezes me surpreendo. 

O colunismo ou textos de opinião sobre acontecimentos políticos e sociais da hora, que ostentam um posicionamento contra ou a favor de determinado assunto, estariam tomando espaço ou se confundindo com a crônica literária?
Sim, sem dúvida, como eu disse lá atrás. Há muito poucos cronistas em atividade na imprensa, hoje. Uns dez, no máximo. Há muitos colunistas. (Só a Folha tem mais de 90.) Eu gostaria de ver mais cronistas. 

Há cronistas que são reconhecidos como retratistas de uma época e uma sociedade, quase como um registro antropológico. Ao retratar sua infância em Nu, de botas, você fala também de uma fase de toda uma geração, além da classe média liberal dos anos 1980; assim como no jornal acaba registrando os costumes de hoje. Realizar um retrato da sociedade é um de seus objetivos?
Não, de jeito nenhum. Acho que qualquer um que se propuser a fazer um registro de sua época (e que não for o Balzac) vai se dar mal. Vai escrever algo chato e pretensioso. Eu escrevo sobre mim e sobre personagens que vivem no mundo que eu conheço, que é esse quinhãozinho paulistano classe média que começa em 1977 e segue até hoje. Sendo assim, é inevitável que uma ou outra característica da época venha junto, na rede. Pensando melhor, isso acontece com qualquer escritor, né? Mesmo que ele escreva ficções científicas que se passam em Marte, em 2098, um leitor atento poderá perceber características da própria época falando por ele.

• “Se eles [adultos] não sabiam nem a função da cueca, como confiar no resto?” Frente à desconfiança da sabedoria dos adultos, dúvidas em relação ao funcionamento do mundo e os questionamentos existenciais, o que você gostaria de dizer ao seu eu de dez anos de idade? E o que, durante a visita à sua infância, esse seu “eu” lhe ensinou?
Eu diria: “Antonio, calma, já já você vai poder usar a roupa que quiser e comer brigadeiro no jantar, se estiver com vontade”. Não sei o que aprendi no processo, mas depois que publiquei tive esse grande prazer que a escrita sempre me proporciona, que é descobrir que aquelas coisas que eu achava mais íntimas, pessoais e intransferíveis, existiam de uma forma muito parecida em milhares de outras pessoas. No caso do Nu, de botas, a descoberta é que todo mundo carrega memórias da infância e elas têm um peso muito grande. Como diria o Arnaldo Antunes numa música muito bonita: “Saiba, todo mundo foi neném/ Einstein, Freud e Platão também./ Saiba, todo mundo teve infância/ Maomé já foi criança”.”