Uma História Lamentável, Fiódor Dostoiévski.

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Mover este amor indescritível por Dostoiévski para frente é simplesmente entorpecedor a cada nova leitura, a cada nova descoberta. Encontrei esta pequena narrativa sua em uma biblioteca e, por ser curtinho, devorei-o em minutos. Mas Dostoiévski é só um e único, então já pode imaginar o que também vos espera.

Uma História Lamentável conta a breve aventura de um liberal juntamente com sua ideia apaixonadamente cega. Iván Ilítch Pralínskii é um jovem de alto cargo. É o Conselheiro de Estado da Rússia. Vindo de boa família, estudou nos melhores colégios e teve bom êxito em seu cargo, tornando-se general muito novo. Bastante rico, mas de uma imaginação excessiva e exagerada. Adotou para si as novas ideias liberais da Rússia, o que o cativou bastante.

A ideia lidava com o tema “humanidade”. Entoava eloquente a assertiva que a humanidade irá salvar o mundo, humanidade em sociedade, tratados de igual para igual, sem distinção de classes, “que são homens como nós!”, a humanidade do mais alto funcionário ao menor deles, e explica de que forma pode levar isso a público.

“Formulemos um silogismo: eu sou humano, logo sou amado. Amam-me, logo têm confiança em mim. Se têm confiança em mim, é porque acreditam em mim; se acreditam em mim, logo me amam… […] se acreditam em mim, acreditarão também na reforma, e esse é o ponto capital da questão: todos se abraçarão moralmente e a coisa se fará de um modo amistoso e fundamental.”

Mas três palavrinhas arrasariam completamente a ideia que adotara.

“– Nós não suportaremos.”

“Nós não suportaremos!” Mais tarde essas palavras fariam completo sentido para o visionário Pralínskii. Mais tarde ele poria em prática tudo o que obstinava ser de então por diante; provar aos demais que “não suportar” significa render-se a um sistema imutável que exige homens que mandem e homens que obedeçam. Seguiu em frente e provou da própria ideia.

Entrou na festa de casamento de um de seus funcionários pobres sem ser convidado, provocou temor, como bem previra, em todos, mas logo anunciou seu lance de paz e pediu que os demais continuassem os festejos. Manteve aproximação da forma que os camponeses mantêm, através da bebida livre e contos de causos. Então o ambiente voltou ao movimento normal, implicando no esquecimento do alto chefe, o que nada lhe agradou. Resolveu expor suas ideias para chamar de volta a atenção. Mas o retorno não foi bem o esperado.

“[…] O senhor veio aqui para se exibir e ganhar popularidade. […] o senhor veio aqui para exibir a sua humanidade. O senhor estragou a nossa festa. Embebedou-se de champanha sem pensar que champanha é uma bebida cara demais para um modesto funcionário que ganha apenas dez rublos por mês.”

O choque lhe foi profundo. Tentou retirar-se do local, mas, por um tombo, desmaiou. Acordou no outro dia arrebatado com o dia anterior. Volta ao trabalho após longos oito dias de reflexão sobre aquela verdade cruel e como lidar com ela da melhor forma. O resultado da reflexão o fez afundar-se em grande desalento e vergonha.

“[…] Severidade, severidade e só severidade!”

Comentar este conto sem citar a máxima de Maquiavel é como se se esquecesse do principal:

“Disso surge uma questão: se é melhor ser amado que temido ou o contrário. A resposta é que seria necessário ser uma coisa e outra, mas, como é difícil reuni-las, é muito mais seguro ser temido do que amado, quando se deve renunciar a uma das duas.”

“– Não suportei!”

Fim do conto.

Bibliografia

DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Uma história lamentável. Tradução de Gulnara Lobato de Morais Pereira. RJ: Paz e Terra, 1996.

MAQUIAVEL, Niccolò Maquiavelli. O Príncipe. Tradução de Ciro Mioranza. SP: Editora Escala, 2008.