Coringa e a face de Maomé

Em janeiro de 2015, em Paris, um atentado assolou o satírico jornal Charlie Hebdo. Um grupo de homens, armados, abriram fogo contra o escritório do hebdomadário. O motivo: uma polêmica charge  sobre os muçulmanos, estrelando o profeta Maomé.

Uma breve pesquisa com as palavras-chave corretas levará o leitor a variadas notícias sobre o ocorrido, cuja narração/ descrição do fato assemelha-se à minha (e muito melhores), incluídos vídeos das câmeras de segurança, bem como as chamadas alarmantes, sensacionalistas, ao fato. Chocantes cenas, questionável divulgação: já temos sangue demais em nossas telas.

No entanto, chamo a atenção para algo escandalosamente maior, que me dará breves minutos de fama (como se não fosse o objetivo) ou umas quantas rajadas de Kalashnikov. Sendo desenhista mal afamado, chargista de informações já passadas, porém – admito –  cartunista de mão cheia, aprecio as extravagantes simplicidades da vida em traços por onde quer que estejam. Não basta criar ambientes, imaginar pessoas, animais, isto pouco importa. As situações, o estilo demarcado pela tinta, a singular presença artesã são os pontos cruciais de toda obra. Reiterar nelas a comicidade, do riso acanhado à escrachante gargalhada, faz delas verdadeiros incômodos sociais. Se me faço através do riso em minhas postagens, nada melhor que rabiscar como os controversos Charlies.

Em Coringa (The Joker – 2019), tamanho papel é endossado. Longe de ser uma doença sem tratamento, o riso é a denúncia de assuntos, preferencialmente absurdos, cujo choro, por exemplo, não desperta mais interesse algum. Belas palavras de risco iminente: “A piada é subjetiva.” Basta realocá-las com a palavra Arte e a sentença se tornará em um perfeito silogismo.

A subjetividade é bela, a piada é Arte e Maomé tornou-se figura pública desde então. O que era um símbolo “esquecido” pelo Ocidente, transformou-se em marco de intolerância. Ou será que não?

Seguindo o silogismo em questão, talvez os religiosos muçulmanos estivessem querendo participar do jogo. “Toc toc.” “Quem é?” “Maomé.” “Só o ‘mé’ pode entrar. Dispensamos o ‘ma’ daqui.” “Bem, pois é só isto o que temos. Ta! Ta! Ta! Ta! Ta! Ta! Ou, melhor, Ma! Ma! Ma! Ma! Ma! Ma!…” Cruzes! Que piada podre! Não tenho bom repertório delas. Mas, se fizeres o link com as cenas, com a moça que se viu obrigada a abrir caminho aos assaltantes, a mesma língua comum, pois falavam perfeitamente o francês, e o desfecho impactante das onomatopeias até que soa divertido.

* * *

Quatro anos se passaram e as marcas daquele evento preocupam pela ausência. Particularmente, temo por minha vida quanto a receptividade dessas palavras. Melhor legá-las ao submundo, fazer de conta que não existem, vertê-las ao “esquecimento”. Muito atrevimento (pra não dizer coragem) de quem as coloca em exposição. Maomé é um de outros tristes exemplos de uma tradição dita imaculável, que não permite entrada do mundo das luzes, que clareiam todos os lados; um mundo de descobertas, e não de seitas. Diferentemente do trocadilho, tais seitas doem e fazem doer em demasia. Daí para que alguns Coringas, loucos de vontade de tirar sarro da cara dessas “autoridades”, como Sísifos determinados e zoar dos deuses, serenos de terem aceitado o torturante moto-contínuo de suas vidas – daí para que eles apareçam é questão de dias, muito distantes ou muito presentes, só para escarnecer através da perturbadora risada estridente. Aceitem!

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Memórias de Adriano – Marguerite Yourcenar

É a primeira vez que percebo um livro respirar. Não é o tipo de respiração comum, como sentir o fluxo de ar passando pelas narinas, chegando aos pulmões e saindo pela boca, enfim, um movimento involuntário do corpo. Uma respiração diferente. Uma respiração pelas palavras.

Ser influenciado antecipadamente pela grandeza da obra de Marguerite Yourcenar, talvez a sua de maior renome (li A Obra em Negro há algum tempo e, desde então, considero-a como obra cânone), inspire minha leitura para novas descobertas, experiências que um olhar mais racional também é capaz de notar. Estar diante de um livro-vivo é saber-se responsável por esta vida a partir de seu índice.

Como o próprio livro indica, trata-se das Memórias de Adriano, um dos cinco grandes imperadores de Roma, e, assim, é uma obra escrita em primeira pessoa. Acredito que este aspecto formal denote mais ainda a respiração, se não da personagem, destas 300 páginas mais ou menos. A inspiração e a transpiração, a absorção e a transmissão ficam claras em alguns pontos. No entanto, pretendo focar em apenas um (ou dois, a depender da consideração do leitor).

Adriano, muito além de seus feitos, desde a construção de um anfiteatro em Itálica atéadriano optar pela via diplomática como resolução de questões com povos vizinhos, divulgou em Roma o Helenismo, fusão de culturas, a grega e a dos povos conquistados por Alexandre, o Grande. Este feito percorre suas vias. Um de seus grandes professores foi Sócrates [inspiração]. A cultura grega, acima de tudo, foi-lhe demasiado importante. Aprender sua língua e transmitir-lhe os conhecimentos com sabedoria e reflexão foi fundamental para a administração do Estado e de si [transpiração].

Aprendizagem [inspiração] e transmissão [transpiração]; o que toma para si [inspiração] e o que passa adiante [transpiração]; o que lhe é particular [inspiração] e o que lhe torna público [transpiração]. O trecho a seguir ilustra a educação precisa de Adriano, a que levou para frente de suas conquistas e a que levou para si ao longo de sua vida.

“Nada se compara à beleza de uma inscrição latina votiva ou funerária: umas poucas palavras gravadas sobre a pedra resumem com majestade impessoal tudo o que o mundo necessita saber de nós. Foi em latim que administrei o império; meu epitáfio será talhado em latim sobre a parede do meu mausoléu, às margens do Tibre, mas em grego terei vivido e pensado.” (p. 42)

Aí, tem-se clara a proposta de Adriano: transmitir para o mundo sua força administrativa, tendo consigo a capacidade de ser humano.

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Ser humano. Uma de suas competências é agir com racionalidade. O problema é que outros humanos, racionalmente ou não, costumam demandar propriedades divinas em alguns outros seres. Se isto acontece com Cristo, um dos maiores exemplos conhecidos, por que não haveria de acontecer com o comandante de um império? Para ser Deus coube aos seus seguidores/ súditos/ criadores elevá-los como tal. Mas para ser Humano cabe a um trabalho rigoroso, de intensa pesquisa e planejamento, bem como de um estilo fino e próprio, elaborado com precisão. É como nos presenteia Marguerite: com esta obra.

“Meu cavalo substituía as mil noções em torno do título, da posição e do nome, que complicam as relações humanas, pelo simples conhecimento do meu peso.” (p. 18)

Se alguém fosse capaz de criar, em primeira pessoa, o próprio relato de Cristo, talvez mostrasse o quão humano ele se sentia montado em um asno, dançando e bebendo em festas de casamento, apaixonando-se por alguém ou mesmo renunciando sacrificar-se por tantos que nunca ouviu falar, por sequer existirem. (Desconheço a leitura de A Última Tentação, de Nikos Kazantzákis, mas nem O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de Saramago, cuja obra li, apresenta este artífice formal.)

Referência

YOURCENAR, Marguerite. Memórias de Adriano. Trad. Martha Calderaro. RJ: Nova Fronteira. (Coleção 50 anos)

EXTRA! EXTRA! O Jornal perdeu as nossas ilusões.

Será? Temo que a grande massa ainda seja, a cada dia, um pouco mais fisgada. Somos uma metáfora em ação: peixes deliciosos criados em cativeiro, servidos todos os dias aos nossos ricos e gordos empresários; alimentam-nos constantemente com aquilo que nos satisfaz, sem nos importarmos se é o que realmente necessitamos. E mesmo quando uma sardinha revoltada resolve pular fora do aquário, um gato vigilante, já à espreita, abocanha-o e a ordem é mantida. Não aprendemos nada das artimanhas da Revolução Industrial? Aprendamos, então, com as Ilusões Perdidas de Balzac.

Luciano de Rubempré, jovem poeta da província de Angoulême, sai de seu pequenoprt_200x259_1442304432 mundo para a grande capital a fim de conseguir fazer seu nome e construir seu legado como escritor. Poeta, e também romancista, traz em sua bagagem autores renomados ao longo da História da Literatura, tais como Walter Scott, Molière e Victor Hugo. Incompreendido em seu berço desloca-se até Paris, o centro das oportunidades, onde tudo é muito fácil. No entanto, nosso herói, de princípios éticos imaculados, conhece os horrores deste universo cruel.

O título não nos engana: toda a obra é uma enxurrada de ilusões perdidas, tanto por parte das personagens quanto nossas, pois, embora acompanhemos este espírito jovem e inocente atravessar os descaminhos da burguesia, desapontamo-nos ao percebermos os impecáveis labores do pequeno serem desarticulados através das luxuosas iguarias de um restaurante refinado e dos apelos da carne em troca da atenção que almejava desde o início.

Encontro-me na metade da obra, mas desde já é possível concordar com o lamento proferido por Oscar Wilde, em menção feita por Mario Vargas Llosa no capítulo Um d’A Orgia Perpétua: “A morte de Lucien de Rubempré é o grande drama da minha vida.” (p. 13) Fácil distinguir o que acontecerá com a personagem através desta frase: “Os jornalistas que tiverem triunfado serão substituídos por outros esfaimados de fome.” (BALZAC, p. 384) E tantas foram as vezes que nosso herói fora avisado, para não se envolver neste campo, por seus amigos críticos e escritores como ele… Mas o orgulho e a necessidade de tornar-se alguém por aquilo que tanto batalhou tornaram-lhe cego e suscetível às garras do que vem fácil, sem se importar com as consequências que viriam. Desvirtuado, tornou-se um peixinho de aquário.

As peculiaridades envoltas em um jornal surpreendem através da potência e precisão da Literatura balzaquiana. O novo mundo foi criado e nós reprisamos as palavras do criador. O mesmo desprezo, as mesmas informações e, claro, a mesma ausência de criticidade. Ou seria o contrário? A mesma bonomia às nossas querências, a mesma seriedade com relação àquilo que desejamos e, fato, a polidez extraordinária comungada com nossas opiniões, de tão críticos que somos? Pois um jornal possui agentes com uma única missão: conseguir mais assinantes. O que nos oferecem? Aquilo que desejamos. Notícias supérfluas ou de cunho desmoralizante. Ora, a seriedade passa ao largo. E os que apresentam o “trato” com as letras estão sempre atentos com o que corre em nosso meio, como “águias douradas” que adentram nossos recônditos mais vergonhosos. Falar de Literatura? Da boa Literatura? Só se houver algum retorno financeiro, pois tudo com ele [o jornal] é um negócio. Entre risos, sátiras, fofocas e crédito, o jornal fundamenta o seu espetáculo: levanta a lona, prepara o picadeiro e… este texto está militante demais!

Apesar de meu temor (e da relutância em utilizar este último termo e suas variantes), muitas são as sardinhas que fogem com destreza das presas do sistema. Não são e nem serão jamais enlatadas ou servidas frescas a um “esfaimado de fome”. No entanto, outras há que as substituam, e as derradeiras fugitivas serão vistas com maus olhos pelas que ficarem e que vierem depois, sendo tachadas de desordeiras. E assim a vida segue, até que se prove o contrário.

Referências

BALZAC, Honoré de. “Ilusões Perdidas”. In: A Comédia Humana: orientação, introduções e notas de Paulo Rónai. Tradução de Ernesto Pelanda e Mario Quintana. SP: Globo, 2013, vol. 7.

LLOSA, Mario Vargas. A Orgia Perpétua: Flaubert e Madame Bovary. Trad. José Rubens Siqueira. RJ: Alfaguara, 2015.

A Liberdade guiando o Condenado

Direitos Humanos, Democracia, Feminismo, Liberdade. Temas de grande impacto na atualidade. Temas de grande importância e de importante discussão. Temas que refletem um mundo de opções. Temas, cujas opções são espelhos, onde nos vemos a nós. Temas formadores de Ego. Temas capazes de entorpecer e confundir.

França, 1830. Auge da Revolução Francesa. Homens, mulheres e crianças lutando lado a lado em busca de direitos, de voz, de liberdade e de reconhecimento. Uma mulher, de braço erguido, empunhando a bandeira nacional, tendo seu pé à frente, com os seios a mostra, aponta o caminho olhando seu batalhão surrado e maltrapilho a lhe seguir, a única personagem de merecido destaque, iluminada o suficiente para que todos a vejam, que a desejem, que lutem por ela. Seu nome? Liberdade.

poussin123A tela de Eugène Delacroix (1798-1863), A liberdade guiando o povo (1830), tornou-se um marco para a Arte, que levantava questões de cunho social em parte da Europa Ocidental, além de seu enquadramento técnico (sombreamento, definição de contornos, plano de fundo etc.). O romantismo social francês ganhava forças à medida que importantes personalidades atuavam nos campos artísticos, políticos e filosóficos. Victor Hugo (1802-1885) foi autor de belos poemas e destacadas peças teatrais, mas seus romances formaram seu nome ao longo dos séculos. Obras como Os Miseráveis (1862), Os Trabalhadores do Mar (1866), O Homem que Ri (1869) entre outras mais, compõem seu material literário de aspecto social. No entanto, para este momento, para o qual estamos em grande conflito, abordar O Último Dia de um Condenado (1829) parece ser aquela onde a “liberdade” está para ser questionada.

Bicêtre.

Condenado à morte!

Já se vão cinco semanas que convivo com tal pensamento, sempre só com ele, sempre petrificado por sua presença, sempre encurvado sob seu peso!

Outrora, pois me parece que faz anos e não semanas, eu era um homem como outro qualquer. Cada dia, cada hora, cada minuto tinha sua idéia. Meu espírito, jovem e rico, era repleto de fantasias. Divertia-se em expô-las a mim, uma depois da outra, sem ordem e sem fim, bordando com infindáveis arabescos esse rude e frágil tecido da vida. Eram moças, esplêndidos mantos de bispo, batalhas vencidas, teatros cheios de barulho e de luz, e então mais moças e tranqüilas caminhadas noturnas sob os espessos galhos das castanheiras. Era sempre festa na minha imaginação. Eu podia pensar no que quisesse, era livre.

Agora sou cativo. Meu corpo está atado a grilhões em uma masmorra, meu espírito está preso a uma idéia. Uma horrível, sangrenta, implacável idéia! Restou-me apenas um pensamento, uma convicção, uma certeza: condenado à morte!

O que quer que eu faça, ele está sempre ali, esse pensamento infernal, como um espectro de chumbo a meu lado, solitário, ciumento, afastando qualquer distração, face a face com minha pessoa miserável, e sacudindo-me com duas mãos de gelo quando quero desviar a cabeça ou fechar os olhos. Ele se insinua sob todas as formas em que meu espírito gostaria de se esconder, mistura-se, como um refrão horrível, a todas as palavras que me dirigem, cola-se comigo nas grades hediondas de meu calabouço; importuna-me quando estou acordado, espreita meu sono convulsivo e reaparece em meus sonhos sob a forma de uma lâmina.

Acabo de acordar aos sobressaltos, perseguido por ele e dizendo a mim mesmo: ‘Ah! É só um sonho!’ Ora, antes mesmo que meus olhos pesados tenham tido tempo de se entreabrirem o suficiente para ver esse pensamento fatal inscrito na terrível realidade que me envolve, na laje úmida e enfadonha de minha cela, sob a pálida claridade de meu candeeiro, na trama grosseira da tela de minhas roupas, sobre a figura sombria do soldado de guarda cuja cartucheira reluz através da grade da masmorra, parece-me que uma voz já murmura em meus ouvidos:

– Condenado à morte!”

Direitos humanos, Democracia, Feminismo: Liberdade. Não, não se trata de a obrao-c3baltimo-dia-de-um-condenado-victor-hugo retratar um amargo período da História, os sangrentos abalos da lâmina ferina, da pena de morte como solução lamentável de uma situação crítica. Trata-se, antes, dos amargos julgamentos estabelecidos em sociedade, dos sangrentos abalos de nossa arma mais letal, a palavra. Trata-se, enfim, da atualidade presente nos gritos desse condenado à morte.

A história, narrada em primeira pessoa, é contada como uma espécie de epístola por um prisioneiro condenado à morte. O estilo, tão presente e tão vivo (como aconteceu com o jovem Werther, de Goethe), aproxima o leitor dos relatos da personagem. Esta é sua última semana e, nesta, já sem esperanças, conta os percalços que vive até o momento que lhe separa da realização da pena. Não há nada que revele seu crime, como lá chegou, mas lá está privado de “liberdade”.

Então, que fazer? Temo-lo tão próximo, mas o quanto dele nós podemos confiar? O que nos dá total segurança de dizer juntos, à leitura da obra, “condenado à morte”? Sim, pois é através da leitura que firmamos o pacto com a “liberdade”. Liberdade de fazermos o que quisermos, sem pensarmos nas conseqüências de nossos atos. A pena de morte não é admitida no Brasil, mas quantos desconhecidos já legamos ao fatídico destino? Certos de que a morte é nosso fim mais preciso o que faz de nós sermos capazes de antecipá-la a alguém?

A resposta já a temos: a palavra. A única guilhotina resistente ao tempo, capaz de fazer vir à tona eventos de séculos tão distantes. A única capaz de jogar o outro à fogueira, levar à forca… A única com poder suficiente de nos dar liberdade. Liberdade de sermos intolerantes, de acusarmos o outro por um defeito de cor, por uma religião distinta, por uma verdade não-identificada pelo eu e, portanto, tornada falsa. Quem são os condenados? Ora, basta que nos deparemos com o primeiro espelho a nos mirar. Todos nós somos condenados. Condenados à morte!

Caímos, por vezes, no grande equívoco de achar que somos os primeiros a pensar determinados questionamentos, a querer encerrar a crise nacional (e por que não mundial?) com a força de nossos braços, e, agora, com a rapidez e engenhosidade de um clique. Nada mais natural. Os louros são colhidos por nós, que sequer vivemos um terço dos nossos antepassados. Lutamos a mesma batalha? Obviamente que não. Mas devemos ser capazes de reconhecer que não somos originais.

Amy Foster – Joseph Conrad

Há tempos não tinha o prazer de me entorpecer com a leitura de pequenas novelas, contos, testículos enfim, providos de grande teor literário. Algumas se tornaram marcantes em meu espírito, como Noites Brancas, A Dócil, Gente Pobre, ambas de Fiódor Dostoiévski, exímio literato da Rússia do século XIX. (As três obras, anteriormente citadas, compõem o nosso catálogo de resenhas. Confira.) Retornar às leituras (e agora, espero, com atenta dedicação) de Joseph Conrad, este gênio da Literatura Inglesa do século XX, tão conhecido por suas grandes obras (No Coração das Trevas, Lord Jim, Nostromo, O Agente Secreto, A Loucura do Almayer, O Negro de Narciso) trouxe o alento de que precisava, opondo-se aos romances sagazes de quatrocentas páginas ou mais: rapidez.

Os dois autores aqui mencionados são, tanto para mim quanto à Literatura, duas figuras que conseguiram compartilhar os tormentos e percalços provenientes do Homem moderno, e que cada um viveu um pouco na pele tais atribulações, mas que, de igual modo, transformaram-nas em labor literário e, assim, em Arte. Ambos foram selecionados a dedo para comporem mais este trabalho, pois qual não foi o meu espanto ao saber que Conrad, pelas palavras de André Gide, na Introdução desta edição, “a menor menção do nome Dostoiévski o fazia empalidecer.” E mais: “Detestava-o cordialmente”. Mas também outras palavras de Gide reforçam meu pensamento: “[…] com [Dostoiévski], no entanto, não deixava de apresentar certas semelhanças.” Foram estrangeiros em terras distintas, mas encontraram nas trevas o mistério inerente a cada ser pensante.

Obviamente que o estilo de escrita de Conrad é sem comparação com a do russo. Há certa leveza na seleção de suas palavras, ao mesmo tempo em que elas são repletas de horror, o mesmo pronunciado pelo coronel Kurtz. A precisão é tamanha que leva o leitor a navegar juntamente à personagem, sentir o peso da narrativa em cada naufrágio, em cada lapso de desespero sentido por cada vestígio de abandono que se aproxima, sem chances de compreensão, implacável, sem misericórdia.

“Imaginação” é a palavra que circula por toda a novela. O único sobrevivente de um9788571063525 naufrágio consegue se refugiar numa terra estranha, vendo-se recluso pelos seus modos, sua língua, seu jeito oblongo e desajeitado de caminhar, tratado como um animal selvagem, conhecendo Amy Foster, mulher que possui imaginação suficiente para lidar com ele, de lhe estender a mão, ao ponto de se apaixonarem, casarem, terem um filho… e a imaginação se esvair. A narrativa é contada por dois narradores habitantes de Brenzett, em que o segundo deles, doutor Kennedy, conta ao primeiro o que ocorreu ao sensível estrangeiro.

A quem já se aventurou com o “romance sentimental” dostoievskiano, Biélye Nótchi (Noites Brancas), lembrar-se-á do generoso e solitário narrador e a rapariga sonhadora Nástienka, cuja “imaginação” estropia as quatro noites de seu novo amigo, indo embora com seu porto seguro. Konrad, polonês, exilado, adota o nome Conrad ao se encontrar em terras inglesas, das quais aprendera o idioma e, nelas, tornara-se escritor; Dostoiévski, habitante de Moscou, parte para São Petersburgo a fim de prosseguir em seus estudos, percebendo a saraivada agitação da cidade em contraste com o isolamento de alguns indivíduos. É inegável, dessa forma, dizer que ambos se utilizaram deste sentimento de estrangeiro para compor suas obras.

[…] Ah, ele era diferente: um coração inocente e cheio de uma boa vontade que ninguém queria, esse náufrago, que, igual a um homem transplantado para outro planeta, estava separado de seu passado por um espaço imenso, e de seu futuro, por uma imensa ignorância. Sua fala rápida, vigorosa, positivamente chocava todo mundo. ‘Um demônio nervoso’, era como o qualificavam. […].” (CONRAD, p. 48)

Este é Conrad: implacável, sem misericórdia!

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CONRAD, Joseph. Amy Foster. Trad. Julieta Cupertino. RJ: Revan, 2007.

DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Noites Brancas. Trad. Nivaldo dos Santos. SP: Editora 34, 2009.

Projeto Regimes Totalitários

A forma como eu realizo minhas leituras está sempre em desenvolvimento. As mudanças que empreendo passam por testes para que eu descubra a melhor forma de conhecer novos autores, reler antigos, escrever sobre o que leio e outras coisas. Diferentemente do que vejo na internet, não acredito que Literatura seja entretenimento, e sim conhecimento. Leio para aprender desde criança. Nunca a vi como passatempo. Por isso mês passado, repensei minhas leituras novamente. A aleatoriedade delas estava me incomodando bastante. Senti falta de um aprofundamento em cada uma delas. E também  questiono-me sempre acerca do tempo que levo. Gostaria de ler bem mais lentamente do que leio. Mas pensando nesses dois questionamentos, resolvi criar pequenos projetos, no qual eu escolheria romances e livros teóricos acerca de um determinado tema.

A Segunda Guerra Mundial sempre foi uma paixão. Estou sempre lendo ou vendo algo acerca do tema, por isso fiquei tão animada com o lançamento de O tambor, escrito por Günter Grass. Conheci o autor no momento da sua morte, ano passado, se não me lembro. A obra é o primeiro livro de uma trilogia com a temática do Holocausto, momento vivido pelo autor. A partir da imensa vontade de ler a obra, resolvi que o primeiro projeto seria sobre Regimes Totalitários.

DEu-D0_XgAAJZBJOs romances escolhidos foram O tambor, livro já mencionado, a trilogia Os sonâmbulos, de Herman Broch e A peste, obra-prima do escritor e filósofo Albert Camus. Os dois romances possuem estruturas bastante diferenciadas um do outro, o primeiro possui um relato mais histórico e direto acerca do Holocausto, o segundo nos coloca nos momentos anteriores à Primeira Guerra, e o terceiro é uma alegoria das consequências do avanço das tropas de Hitler. Vale salientar que não li nenhum ainda, a escolha foi feita por críticas lidas acerca dos livros.

Confesso que sei que A Montanha Mágica que li há pouco tempo também aborda o tema, mas não consegui abarcar as analogias feitas pelo autor, por isso preciso estudar mais acerca da obra e o reler também para escrever sobre.

Os livros teóricos escolhidos abordam algumas formas de pensar acerca do tema. ADEu9__gXYAAhRsy Alemanha ainda hoje é vista com preconceito por informações e visões que recebemos da mídia norte-americana, por isso resolvi escolher conhecer os dois lados. O primeiro escolhido foi um livro filosófico de uma autora judia muito aclamada e conhecida por nós, Hannah Arendt. Escolhi Origens do Totalitarismo, onde a autora abordará os principais regimes totalitários do século XX. Lerei também Os alemães, livro do sociólogo Norbert Elias, no qual o autor busca explicar como a Alemanha chegou ao momento crítico das duas guerras. Ao ler o prefácio de Os alemães escrito por Eric Dunning e Stephen Mennel, descobri que Bauman havia escrito também um livro chamado Modernidade e Holocausto acerca da temática e que possuía uma visão completamente diferente de Elias. Resolvi acrescentá-lo também às discussões que eu faria.

Compreendo perfeitamente o quão longe estou de abordar a temática na sua totalidade, mas será um começo. Tenho consciência de que durará a vida toda, mas para o Rascunhos Críticos dissertarei acerca dos livros escolhidos. Mas manterei o projeto em aberto. E não colocarei prazo a nenhuma dessas leituras.

 

Senhor das Moscas, William Golding

Senhor das Moscas foi a obra-prima de William Golding, ganhador do premio Nobel de 1983. Seu sucesso não foi imediato, mas com o tempo tornou-se leitura obrigatória nas escolas norte-americanas. A estrutura escolhida pelo autor foi a alegoria, na qual este usa para discutir acerca da natureza do mal na humanidade, depois do pós-guerra. A maioria das criticas o discutem acerca da relação antagônica da democracia e do totalitarismo, ou ainda como uma alegoria para o mito da origem do mal cristão.

18767620_1798796460135869_8429832506873740176_nA obra nos conta sobre um grupo de crianças inglesas que após um acidente aéreo ficam presas em uma ilha, completamente sozinhas. De inicio, eles decidem escolher democraticamente o líder. O símbolo usado para a discussão é uma concha que um deles encontra perto da praia. Esta faz um barulho que faz com que os meninos entendam ser uma autoridade. Apesar dos esforços do líder escolhido, surge uma nova liderança que usa a força como argumento.

Apesar de parecer um livro de aventuras infantil, o livro discute questões sérias acerca da moral humana. Confesso que o livro não seria minha primeira opção para uma leitura e que não o considero um favorito. Mas O Senhor das Moscas me surpreendeu e me fez pensar em como a Sociedade ainda possui o conceito de criança proposto por Rousseau. Então, preferi abordá-lo de uma forma diferente para que possamos pensar na nossa visão de criança.

O conceito de criança atual é bastante recente. Até o século XIX, elas eram vistas como pequenos adultos. Assim, seus pais não precisavam manter seus cuidados por muito tempo. Depois disso, Rousseau nos apresentou uma criança inocente, com necessidade de cuidados por um longo tempo e que precisava ser defendida do mundo adulto. A partir desse momento, as crianças foram postas a parte desse mundo e foram colocadas no mundo da fantasia. Não me entendam mal, a fantasia faz parte do desenvolvimento infantil. O problema acontece quando as pessoas acreditam que elas são isentas de possuírem a condição humana do mal e da violência. Características, infelizmente, inatas ao ser humano.

William Golding nos mostra uma pequena amostra de uma sociedade humana feita apenas de crianças. Diante do abandono, da fome, da falta de cuidados, elas agem com violência, superstições, anarquia, e ao mesmo tempo com imposição. Suas ações e reações são pertencentes à condição do ser humano. Cada um de nós não pode negar que poderiam ter as mesmas atitudes.

O que me chamou a atenção foi a escolha do autor em utilizar personagens infantis. Talvez sua intenção tenha sido relacioná-las a chamada infância da humanidade, período em que os homens ainda eram tribais. Apesar da infeliz relação tentada pelo autor, não acredito que o progresso tenha ocorrido também na moral da humanidade. Não aceito que sociedades tribais, como as dos nossos índios, sejam impostas ao ‘progresso’ porque outra sociedade se pensa superior às demais, mas esta seria outra discussão, também apropriada à obra.

Voltando ao conceito de criança, Freud defendeu a existência da sexualidade infantil. Wallon, ao estudar acerca da afetividade do infante, soube da também existente crueldade pueril, posto que a afetividade precisasse ser trabalhada desde a infância. Poderíamos citar muitos estudos acerca do desenvolvimento infantil, no qual veríamos a incongruência do conceito de Rousseau.

Assim, precisamos pensar se, apesar de serem necessitadas de cuidados, de educação, de acompanhamento adulto, a criança é dotada da mesma condição inata a todo ser humano ou se a inocência as incapacita de atos cruéis.