S. Bernardo, Graciliano Ramos.

s.bernardoCoincidentemente, S. Bernardo aborda em sua temática a mesma contida em A Revolução dos Bichos, de George Orwell, livro que li há pouco e achei interessante mencionar. Ambos tratam das questões políticas, embora Orwell, a meu ver, trate a respeito, de uma forma mais geral, do estado de calamidade entre o oprimido e o opressor. Graciliano, no entanto, é um caso em particular. Em verdade, Paulo Honório é um caso em particular.

O romance, as lembranças de Paulo Honório, narrador-personagem e escritor do próprio livro, passa-se no município de Viçosa, Alagoas. Sua linguagem convém perfeitamente com o ideal de Graciliano, uma linguagem sertaneja, com um estilo abrutalhado singular. Paulo Honório, homem interiorano, orgulhoso de suas conquistas e da terra onde se criou, acaba por se tornar mais um dono de terras envolvido com a politicagem local, tendo que lidar com pessoas e pessoas, de má fé e boa índole, para poder seguir no comando da tão sonhada fazenda S. Bernardo.

A história é composta por juízes de direito, vigário, redatores de jornais etc., bem como de manipulações de voto, críticas à ordem vigente, onde manda quem pode, obedece quem tem juízo, difamações confundidas com liberdade de expressão etc., etc. E, claro, a moça bonita por quem seu Paulo desperta interesse.

Carrancudo que só ele, Paulo Honório alega que não há melhor educação que a trabalhada no braço, despreza a escola em sua estrutura física e teórica, e que a literatura não leva ninguém a lugar algum. A vida vivida, para ele, é a melhor das escolas. Sobre a literatura, pergunto-me sobre o que ele pensa do livro que está escrevendo. Lorota? Idiotice? Não sei. Nem bem cheguei ao final do livro.

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Suspeito de que o livro seja um relato de como sua vida foi por água a baixo depois que se casou com a moça bonita, Madalena, que era comunista e materialista histórica, sem ele saber, que acabou se metendo em suas posições de fazendeiro, “interferindo nos negócios”.

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De fato, a mulher contribuiu para a sua derrocada, mas não somente. Uma revolução fora iniciada, o partido que apoiou perderam, amigos próximos o abandonou, o dólar subiu de cotação, a safra não rendeu, enfim, S. Bernardo entrou em crise.Photo0047

Um dos capítulos que julgo de maior importância é o último, tanto quanto o 19º. É o extremo humano de Paulo Honório: um homem que trabalhou uma vida inteira, que comeu o pão que o diabo amassou, e vê este mesmo diabo arrastar-lhe tudo o quanto um dia conseguiu. Dessa forma, Graciliano Ramos nos mostra em seu romance que a crise do homem, em seu eterno questionar-se sobre o porquê de sua existência, não é somente um privilégio do homem urbano, acostumado à agitação da cidade. É um privilégio daquele que se questiona, do homem que tem sua terra invadida ilicitamente, não por castigo de ter feito o mesmo, mas por saber que assim é a vida, e por isso sofrer tão amargamente.

Bibliografia

RAMOS, Graciliano. S. Bernardo. RJ: Editora Record, 2005.

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O Estrangeiro, Albert Camus.

Depois de algumas poucas horas de leitura me senti instigado a fazer um breve comentário a respeito deste romance dividido em duas partes.

Meursault, personagem principal da obra, tem sua vida cruzada por diversos eventos aparentementeo-estrangeiro chocantes para qualquer ser humano. Na primeira parte, logo de início, ele relata o falecimento de sua mãe. Mais tarde em como reencontra Marie, uma antiga amiga de trabalho, e sobre o recente relacionamento que ocorre entre eles.  Apresenta-nos seus vizinhos, um deles se chama Salamano, um senhor de idade que leva sempre consigo um cocker-spaniel, um cachorro também já velho, cheio de sarnas e quase sem pelos. O velho trata o pobre cão com muita impaciência e fala mal a todo instante. O outro se chama Raymond Sintès, um homem que acaba se metendo em confusão por causa de sua amante, que andava se aproveitando dele, e por isso a espancara até sangrar.

Na segunda parte, Meursault é preso ter matado um árabe e, em julgamento, é condenado à decapitação em praça pública. Isso acontece porque a vítima era irmão da amante de seu vizinho Raymond que, durante um passeio na praia, acaba sendo perseguido pelo árabe. Raymond, que estava acompanhado de Meursault, entrega-lhe uma arma para, caso fosse necessário, ele atirar no perseguidor. No entanto, o acaso se encarrega de toda a desgraça.

Por esta brevíssima resenha, tal como é a obra, diríamos que nada há de especial nela… A não ser o seu detalhe crucial. Meursalt NÃO É qualquer ser humano. Numa palavra, sua importância está no significado do sujeito titular do romance: estrangeiro. Seus eventos chocantes, como mencionado há pouco, os são ainda mais pelo fato de ele não esboçar a menor reação com o falecimento da mãe, ou não dar a mínima se irá se casar com Marie – pior, se a ama –, ou a frialdade em anunciar que os cães, quando recolhidos pela carrocinha – falava ao senhor Salamano, que havia perdido o cachorro –, ficam disponíveis ao dono por apenas três dias, mas que, depois, se ninguém fosse busca-los, faziam o que bem entendiam, ou a indiferença ao concordar em participar, mesmo que indiretamente, do plano de Raymond, enviando uma carta ameaçadora a amante deste, resultando em mais outro espancamento. Entretanto, seu mundo parece abalar-se com o crime que comete.

“E era como se desse quatro batidas secas na porta da desgraça.”

Albert Camus nos apresenta em seu romance o que outrora desenvolvera no ensaio O Mito de Sísifo, ao lança-las simultaneamente em 1942. Tanto uma quanto a outra discorrem sobre a importância da vida, afinal, quê há de mais importante que a vida? E a resposta seria a rejeição da própria vida em nome de algo que valha mais, em busca de um sentido. Seria tudo muito simples se não fosse o fato de que nada há de importante. Leitor dedicado de Dostoiévski, não será surpresa se compararmos Meursault ao clássico e “super inteligente” estudante Raskólnikov, de Crime e Castigo. Ambos cometem um crime e sofrem um castigo. Ambos, no final de cada obra, encontram a paz merecida. Ambas as personagens revelam muito de cada autor.

Cento e vinte e oito páginas de peso extremo e essencialmente existencialista. Obra refletida no absurdo, assinada por este que é considerado um gênio do século XX, agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1957.

Bibliografia

CAMUS, Albert. O Estrangeiro. Tradução de Valerie Rumjanek. 30ª ed. RJ: Record, 2009.