Diário da subida #3

A semana já começou com Hans dissertando que a doença traria ao enfermo um certo ar de cultura e seriedade. Absolutamente, concordo com Settembrini, este pensamento é bastante doentio. Me encontro doente nesse momento, seria difícil dizer se do corpo ou da alma. Mas posso afirmar que não possuo esse ar de cultura, pois nem consigo levantar-me da cama. O italiano afirmou que um enfermo é um corpo sem alma, já que tal estado daria prioridade ao corpo. Também concordo e vejo que corpo e alma são indissociáveis tal como os gregos e posteriormente, o filósofo Bergson. Ainda estou lendo sobre o assunto, mas este já me parece bastante interessante.

Em uma outra discussão com Settembrini acerca da Educação, este afirma que um jovem talentoso não é vazio, mas antes cabe ao professor ensinar-lhe o bem e afastar-lhe o mal. Já eu, não considero este, dever da educação formal, mas antes dar-lhe e desenvolver-lhe a faculdade do pensamento. Ele inclusive vê na Música algo que nos desperta, mas que entorpece assim como drogas. Particularmente, penso que esta desperta nossos sentimentos e instintos, mas também nos traz a ordem por conta da forma como é composta, sendo irmã íntima da Matemática. Mas saibam desde já que sei pouquíssimo sobre o assunto.

Mas o ponto alto foi a palestra do Dr. Krokowski que defendeu sua tese de que a doença nada mais é do que a potência do Amor transformada. Novamente surge em questão a relação  intrínseca entre doenças físicas e psicológicas. Penso que em relação a este assunto, preciso me ambientar um pouco mais assim como Hans, já que faz tão pouco tempo que chegamos, apesar de parecer tanto…

 

 

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A vida do livreiro A.J. Fikly, de Gabrielle Zavin

Imagine um livro que traduz todo o amor que você sente pelos livros? Esse foi o download (2)sentimento que senti durante a leitura de A vida do livreiro A.J. Fikly, de Gabrielle Zavin. Eu sei que não costumo ler livros em que não conheço o autor, mas sempre me encanto com histórias sobre livros.

A.J. Fikly é um homem solitário que acaba de perder sua esposa em um acidente de carro e vê na literatura a única forma de sobreviver. Ele parece ser o último livreiro que se importa com cada livro da livraria de uma pequena cidade do interior chamada Alice. Mas coisas inesperadas como a perda de um livro valioso, a chegada de um bebê e um grande amor surgem de repente…

 A Island Books é o lugar perfeito para quem ama livros. Durante a leitura sonhei em estar passeando pelos seus corredores e em ter longas conversas com o livreiro mais culto que já vi. A ausência da pessoalidade das pequenas livrarias é algo que aos poucos está se perdendo, mas somente os verdadeiros amantes dos livros sabem a importância de lugares assim.

E o protagonista? Tem como não amar A.J. Fikly? A cada capítulo, há uma indicação de leitura junto com alguns comentários feitos pelo livreiro para sua filha, agora adolescente. Apesar de parecer pouco simpático no início do livro, aos poucos o leitor apaixona-se cada vez mais pela forma como o protagonista vê os livros, a forma como ele vira dono da livraria, seu amor por mulheres que ama livros, a forma como cuida da sua filha e como faz uma pequena cidade que não tinha o hábito virar leitora com seus clubes de leitura e encontros com escritores.

A vida do livreiro A.J. Fikly não é um marco na literatura mundial, nem uma obra-prima da prosa, mas fez com que eu me emocionasse e lembrasse da importância da Literatura na minha vida. Definitivamente, virou um xodó!

Seda, de Alessandro Baricco

Seda
Seda, de Alessandro Baricco foi uma experiência eminentemente estética. Cada espaço em branco em volta do texto queria dizer algo mais que somente as palavras do autor. Cada linha lida nos mostrava um novo aspecto ou confirmava aspectos já percebidos. Conhecer a obra foi passear por entre as sedas…
Inicialmente, Hervé Joncour nos parece ser nosso guia pelas sedas… Conhecemos sua vida e seu silêncio, descobrimos seu trabalho. Sua inércia chega a nos agitar, sensação oposta a que o personagem parece assumir diante da vida. E o silêncio durará?
Um convite leva-nos junto a Hervé para o Japão. Lá conhecemos os mais belos olhos de menina… Hervé se encanta… O olhar da jovem parece hipnotizá-lo… Ele cumpre a missão. Mas esquecerá aqueles olhos? Hervé volta para casa e não consegue esquecer aquele olhar, nem nós…
“A menina ergueu ligeiramente a cabeça. Pela primeira vez afastou os olhos de Hervé Joncour e os pousou na xícara. Lentamente, girou-a até que seus lábios estivessem precisamente sobre o ponto em que ele bebera. Entreabrindo os olhos, tomou um gole de chá. Afastou a xícara dos lábios. Tornou a pô-la onde a recolhera. Sua mão desapareceu sob o vestido. Voltou a apoiar a cabeça no colo de Hara Kei. Os olhos abertos, fixos nos de Hervé Joncour.” (p.33).
Enfim vemos Hélène. Esposa do protagonista. A Seda mais suave exposta no livro. Cada palavra sua apresenta-se ao leitor como um carinho. Sua suavidade embala o marido e aquece-nos. O leitor desatento pensa ser a menina japonesa a melhor seda, mas aos meus olhos Hélène é a seda mais suave e também nossa guia pelas sedas…
“Hervé Joncour iniciou os preparativos, e no começo de outubro estava pronto para partir. Hélène, como todo ano, ajudou-o, sem nada perguntar, e escondendo sua inquietação. Só na última noite, depois de apagar a luz, encontrou força para lhe dizer:
 — Prometa-me que voltará. 
Com voz firme, sem doçura.
 — Prometa-me que voltará. No escuro, Hervé Joncour respondeu:
 — Prometo.” (p. 80, 81).
“No primeiro domingo de abril — a tempo para a missa solene — alcançou as portas de Lavilledieu. Viu a mulher, Hélène, correr ao seu encontro, e sentiu o perfume de sua pele quando a abraçou, e o veludo de sua voz quando ela disse:
 — Você voltou. Suavemente.
 — Você voltou.” (p. 51).
A escrita de Alessandro também nos faz um leve toque… Ela é poética, meiga e muito sensual. Cada palavra nos envolve como um tecido de seda acaricia a pele nua… Seu toque é suave, nos mostra carinho, mas há no fim um leve arrepio que nos deixa excitados de uma maneira tão leve…
Dificilmente conseguirei passar a sensação sentida na leitura do livro, por isso escolhi a brevidade do escrito. Mas quem sabe essa mesma brevidade não vos pareça também como um toque de seda…
Autor
Nasceu em 1958, em Turim. É considerado um dos principais escritores contemporâneos da Itália. Escreveu os romances Mundos de vidro; Oceano mar; City; Sem sangue e Esta história, livros de ensaios e peças teatrais (como o monólogo Novecentos, adaptado para o cinema por Giuseppe Tornatore).  Baricco recebeu, na França, o prêmio Médicis Étranger e, na Itália, o Selezione Campiello Viareggio e o Palazzo al Bosco.