Diário da subida #3

A semana já começou com Hans dissertando que a doença traria ao enfermo um certo ar de cultura e seriedade. Absolutamente, concordo com Settembrini, este pensamento é bastante doentio. Me encontro doente nesse momento, seria difícil dizer se do corpo ou da alma. Mas posso afirmar que não possuo esse ar de cultura, pois nem consigo levantar-me da cama. O italiano afirmou que um enfermo é um corpo sem alma, já que tal estado daria prioridade ao corpo. Também concordo e vejo que corpo e alma são indissociáveis tal como os gregos e posteriormente, o filósofo Bergson. Ainda estou lendo sobre o assunto, mas este já me parece bastante interessante.

Em uma outra discussão com Settembrini acerca da Educação, este afirma que um jovem talentoso não é vazio, mas antes cabe ao professor ensinar-lhe o bem e afastar-lhe o mal. Já eu, não considero este, dever da educação formal, mas antes dar-lhe e desenvolver-lhe a faculdade do pensamento. Ele inclusive vê na Música algo que nos desperta, mas que entorpece assim como drogas. Particularmente, penso que esta desperta nossos sentimentos e instintos, mas também nos traz a ordem por conta da forma como é composta, sendo irmã íntima da Matemática. Mas saibam desde já que sei pouquíssimo sobre o assunto.

Mas o ponto alto foi a palestra do Dr. Krokowski que defendeu sua tese de que a doença nada mais é do que a potência do Amor transformada. Novamente surge em questão a relação  intrínseca entre doenças físicas e psicológicas. Penso que em relação a este assunto, preciso me ambientar um pouco mais assim como Hans, já que faz tão pouco tempo que chegamos, apesar de parecer tanto…

 

 

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Diário da subida #2

Conhecemos o grupo do ‘único pulmão’. Eles nos surpreenderam com sua alegria constante. Joachim nos lembrou que o tempo nada significa para eles, que a seriedade só existe na vida de baixo. Joachim também nos contou que uma moribunda se esperneava ao receber a extrema unção. Imediatamente pensei se tal moça estava realmente moribunda, já que o doutor estava sempre precisando de camas vagas.

Conhecemos também o Sr. Settembrini, uma das personalidades mais interessantes do sanatório. Suas falas apesar de sempre bem colocadas, nos angustiavam um pouco. Ele também nos falou acerca do tempo, e nos faz pensar que nunca sairemos daqui… Sua ironia, ou maledicência como o mesmo nomea, é a sua melhor arma a favor da crítica. Esta, me parece, não se faz presente em Hans.

Em um momento, Hans passa também a dissertar acerca do Tempo e o relaciona ao espaço. Essa relação sempre me interessou, principalmente da forma tão intrínseca como Hans aborda.

Vivemos aqui como se estivéssemos em um sonho consciente. Tentamos acordar, mas cada vez mais embarcamos nele e ontem Hans já nos disse que teve sonhos estranhos. Em alguns momentos me questiono se é real… E tudo isto em um único dia, no mesmo dia da chegada de Hans ao sanatório.

Diário da subida #1

De início, estranhei a subida. Logo de cara, descubro que o espaço assim como o tempo podem nos fazer esquecer coisas, reconstruir outras. Nossas memórias são a única possibilidade que temos para resignificar o passado. O presente nos está demasiadamente próximo para que possamos conseguir pensá-lo. O futuro ainda não conhecemos. Hans nos acompanha nessa descoberta ao perceber que suas preocupações a cada passo ficam cada vez mais distantes.

O lugar me parece familiar. Sua descrição me parece uma lembrança de um tempo que não conheço. A morte nos parece tão próxima e ao mesmo tempo tão natural. Pessoas morrem aos montes por aqui e como disse Joachim: morrem discretamente. Hans nos conta sua vivência com a morte e vemos a importância da alma sobre o corpo. O que há é apenas matéria. A brevidade da vida sempre fez parte das memórias de Hans. Como seria crescer sabendo o quão breve é a vida?

Refletimos com o narrador acerca da relação íntima entre nossa vida interna e os impulsos externos. Haverá alguma forma de superar o externo? Ele acha que não. Tenho medo que ele esteja certo…

Hans é retratado como medíocre e o narrador tenta justificar o adjetivo. Ele naturaliza as bases da sociedade. Quantas pessoas não conhecemos que são assim? Naturalizam os desmandes do governo, o comportamento correto das pessoas, nossas escolhas durante a vida. Mal sabem elas que toda escolha tem consequências, não importa se você ache que minha escolha é mais fácil.

Hans acreditava no trabalho como um valor absoluto. O narrador afirma que em uma sociedade que necessita saber o “para quê?” das coisas, empreender uma obra que não a responda satisfatoriamente, é difícil. Precisa-se de isolamento e coragem. A Literatura seria uma delas? Seu estudo tem uma finalidade? Continuo a persistir, apesar de todos acharem que estou na idade de trabalhar.

Chegamos até aqui. Imaginamos que tenha se passado muito tempo, mas somos avisados por Joachim que só se passou um dia. O tempo mais uma vez nos prega uma peça. E torna-se personagem principal de nossa viagem.

O ponto alto fora conhecer Settembrini. Suas conversas estimulantes e assustadoras. Mas isso fica para outra parada.