Desafios para 2015

cropped-cropped-10287251_646119838791830_937993083_n1.jpgO ano de 2014 foi muito atribulado e não foi um ano com muitas leituras, mas ano que vem pretendo mudar esses números. E para isso, resolvi fazer alguns desafios e participar de alguns desafios de amigos. Espero que as metas façam com que eu me pressione a ler e escrever mais aqui no blog. Então, vamos lá.

1. Projeto Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust;

Proust é um autor que influenciou muitos de seus escritores contemporâneos com seu estilo de escrita em fluxo de consciência. A obra Em busca do tempo perdido possui 7 títulos em que a vida do protagonista Marcel é descrita em seu percurso em ser escritor. Mas o autor faz reflexões sobre o amor, a arte, o tempo, mas principalmente a experiência humana. O projeto consiste em ler todos os livros que fazem parte dessa gigantesca e magnífica obra de Marcel Proust. O projeto pode ser acompanhado aqui.

2. Projeto livros premiados;

O projeto foi criado pela Juliana Brina, do blog O pintassilgo e consiste em ler pelo menos 2 livros ganhadores dos seguintes prêmios: Nobel, Man Booker Prize, Jabuti, Pulitzer Prize e Portugal Telecom, em 2015. O projeto também pode ser acompanhado na página aqui.

3. Projeto The Rory Gilmore Book Challenge;

O projeto consiste em ler todos os livros que a personagem Rory Gilmore, personagem da série Gilmore Girls, leu ou citou na série. Estou usando a lista da Eduarda Sampaio, do blog Maquiada na livraria. Ano passado estive acompanhando este desafio em alguns blogs e como adoro a série e tenho vontade de ler muitos livros da lista, então resolvi participar também. Já li alguns da lista, mas vou relê-los. O projeto pode ser acompanhado aqui.

4. Projeto O mundo moderno;

O mundo moderno mudou radicalmente toda a visão de mundo de um tempo, principalmente na Literatura. O projeto será baseado no livro O mundo moderno. Dez grandes escritores. do escritor Malcolm Bradbury, onde lerei todas as obras dos autores citados no livro. A lista dos autores está na página do projeto onde pode-se acompanhar o projeto.

Todos esses projetos são a longo prazo, mas pretendo ler com certa regularidade para cada um. Emfim, todos estão convidados para participarem comigo de qualquer um. E contem-me nos comentários sobre seus projetos e desafios  literários para 2015!

Bom ano de leituras para todos! Visitem-me ano que vem e comentem!

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A vida do livreiro A.J. Fikly, de Gabrielle Zavin

Imagine um livro que traduz todo o amor que você sente pelos livros? Esse foi o download (2)sentimento que senti durante a leitura de A vida do livreiro A.J. Fikly, de Gabrielle Zavin. Eu sei que não costumo ler livros em que não conheço o autor, mas sempre me encanto com histórias sobre livros.

A.J. Fikly é um homem solitário que acaba de perder sua esposa em um acidente de carro e vê na literatura a única forma de sobreviver. Ele parece ser o último livreiro que se importa com cada livro da livraria de uma pequena cidade do interior chamada Alice. Mas coisas inesperadas como a perda de um livro valioso, a chegada de um bebê e um grande amor surgem de repente…

 A Island Books é o lugar perfeito para quem ama livros. Durante a leitura sonhei em estar passeando pelos seus corredores e em ter longas conversas com o livreiro mais culto que já vi. A ausência da pessoalidade das pequenas livrarias é algo que aos poucos está se perdendo, mas somente os verdadeiros amantes dos livros sabem a importância de lugares assim.

E o protagonista? Tem como não amar A.J. Fikly? A cada capítulo, há uma indicação de leitura junto com alguns comentários feitos pelo livreiro para sua filha, agora adolescente. Apesar de parecer pouco simpático no início do livro, aos poucos o leitor apaixona-se cada vez mais pela forma como o protagonista vê os livros, a forma como ele vira dono da livraria, seu amor por mulheres que ama livros, a forma como cuida da sua filha e como faz uma pequena cidade que não tinha o hábito virar leitora com seus clubes de leitura e encontros com escritores.

A vida do livreiro A.J. Fikly não é um marco na literatura mundial, nem uma obra-prima da prosa, mas fez com que eu me emocionasse e lembrasse da importância da Literatura na minha vida. Definitivamente, virou um xodó!

O Sonho de um Homem Ridículo, Fiódor Dostoiévski.

“Eu sou um homem ridículo.”

Assim se inicia a trama de um homem que decide cometer suicídio. Minutos antes, já tudo pronto para o ato, adormece e tem um sonho que muda a sua vida. Ao despertar, desiste de se matar e sai feliz da vida com uma missão em mente, a de mudar o mundo. Fim! Mas o que há de tão ridículo – ou tão especial –nesta pequena narrativa de Dostoiévski?

Ora! Como não achar ridículo um homem que praticamente se considera…download (1) Calma, calma, vamos por partes. Bem, sabemos como a história começa. Em primeira pessoa, o narrador se autodescreve como “ridículo”, palavra esta que, facilmente, encontramos no texto. Diante disso, em virtude de pesquisas em dicionários, o mencionado vocábulo remete àquilo que é digno de riso, de zombaria, escárnio; que tem pouco valor, insignificante, irrisório. O indivíduo assim intitula-se por N motivos, mas o pior de todos, segundo o próprio, é por tornar-se indiferente. Essa pareceu ser a gota d’água.

Andando, indiferente, à noite, pela rua, avista uma estrela brilhando ao longe no céu. De repente, a decisão: “me matar naquela noite.”. Por quê?Existem milhões e milhões de teorias astronômicas e psicológicas que expliquem a referida associação à estrela no enredo, mas deixemos isso para os mais entendidos do assunto. Entretanto, não significa que não me arriscarei a comentar, como um leigo, este fragmento narrado. Mas não nos apressemos, vamos continuar.

Eis que, diante de sua indiferença e decisão repentinas, surge uma garotinha pequena, clamando ajuda pela sua “mámatchka”, sua mamãe, ao homem. Ridículo e indiferente ignora completamente a menina, que sai desesperada atrás de outra pessoa que a socorra. Tão inocente gesto dará um novo sentido ao ridículo, tornando-o fantástico… Ou seria o contrário?

“É claro que teria me matado, se não fosse aquela menina.”

Dor. Três letrinhas unidas formando uma palavra de significado tão sentimental. Pode ser usado para expressar uma pancada, um impacto, um edema, uma perna quebrada, um dente nascendo, uma unha encravada, um ouvido estourado e outras ações mais, porém onde nosso herói sentiu foi demasiado intensa. Foi na consciência. Devido a sua atitude com a garotinha, surgiram várias questões, e foram tantas, tantas, que o homem adormece, sentado à mesa na poltrona.

“Os sonhos, como se sabe, são uma coisa extraordinariamente estranha: […] move-os não a razão, mas o desejo, não a cabeça, mas o coração, […].”

Em seguida o sonho.

“De repente sonhei que apanho o revólver e, sentado, aponto-o direto para o coração – para o coração, e não para a cabeça; […].”

Precisamente, em poucas palavras: porque apelava, inconscientemente, para a emoção e não à razão, atirou no próprio peito acertando o coração, órgão idealizador de nossos sentimentos, “ativando-o”, como veremos mais adiante.

Após o tiro, o homem jaz em um caixão, estando cego e mudo. Enterrado por seus vizinhos, nada espera. Mas de repente dá-se início a uma tortura.

“Mas de repente no meu olho esquerdo fechado caiu, infiltrada pela tampa do caixão, uma gota d’água, depois de um minuto outra, depois de mais um minuto a terceira, e assim por diante, sempre de minuto em minuto.”

E eis que uma criatura o arranca de seu estado mortificado, levando-o direto a um ponto reluzente no espaço, a Terra, mas uma Terra diferente, uma “terra não profanada pelo pecado original”.

De acordo com o cristianismo, a ideia que se tem de paraíso é a seguinte: um mundo de paz, onde não há discórdia nem desunião, pelo contrário, o amor prospera, as pessoas se dão bem e são livres para viver em harmonia com os animais, com a natureza etc. Assim era a nova Terra onde o homem sonhador estava, e ele, espantado com a novidade, não sabia distinguir aquilo que, talvez, fosse, digamos, inverossímil. Entretanto, real ou imaginário, aconteceu uma catástrofe. Tomado por referência cristã – e éessa mesma a de todo o sonho e, consequentemente, de toda a história – digo que “a serpente deu o fruto proibido à Eva” (ver Gênesis).

“O fato é que eu… perverti todos eles!”

Disto pode-se imaginar o mínimo que possa ter acontecido. Eles aprenderam a mentir, a brigar, dividiram-se em grupos, cada qual com sua bandeira, novas línguas foram formadas, surgiu a ciência, as leis e suas consequências, surgiram os justos e a escravidão, surgiram as religiões… O caos estava formado. Porém, sofrendo pela barbárie que assolara o novo mundo, o homem tomara uma postura diferente, a postura de um Salvador, mais precisamente, talvez – pode ser que eu esteja enganado – de Jesus (ver João).

“Eu andava no meio deles, torcendo as mãos, e chorava diante deles, mas os amava, […]. Dizia-lhes que eu é que tinha feito tudo isso, só eu; eu é que lhes tinha trazido a perversão, a doença e a mentira! Implorava-lhes que me pregassem numa cruz, […].”

Suas declarações foram tantas que passaram a vê-lo como perigoso, ameaçaram-no trancá-lo num hospício. A dor lhe foi tamanha que sentiu que ia morrer, mas eis uma surpresa.

“… eu senti que estava prestes a morrer, e foi aí… bem, foi aí que eu acordei.”

E aqui vai minha teoria astro-psicológica. Sabe quando se está prestes a desistir de tudo, e você acha que já não há mais sentido na vida, e, de repente, surge a bendita “luz no fim do túnel”? Pois bem, essa é a estrela que nosso ridículo – ou fantástico – homem vê, e que por muito pouco quase fica sem entender a verdadeira mensagem. Este parágrafo está muito cristão, mas não há como fugir, pois o homem saíra, e sai, para pregar a verdade, para pregar o amor.

“O principal é – ame aos outros como a si mesmo, eis o principal, só isso, não é preciso nem mais nem menos: imediatamente você vai descobrir o modo de se acertar.”

Ao final, o seguinte fragmento:

“E, quanto àquela menininha, eu a encontrei… E vou prosseguir! E vou prosseguir!”

Devido à marca gramatical, o homem está no tempo presente, como se manifestasse um questionamento em cada leitor, do tipo “E você, vem comigo?”.

Vívido em cada narrativa criada, Dostoiévski apresenta para nós mais este monólogo que, devido à opção religiosa do autor, aparenta ser mais um de seus romances autobiográficos. Divirtam-se com a leitura!

Bibliografia

DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Duas narrativas fantásticas: A dócil e O sonho de um homem ridículo. São Paulo: Editora 34, 2003.

BECHARA, Evanildo (organizador).Dicionário escolar da Academia Brasileira de Letras: língua portuguesa. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2011.

BÍBLIA SAGRADA.São Paulo:Editora Paulus, 1991.

A Aldeia de Stepántchikovo e seus Habitantes, Fiódor Dostoiévski

Certa noite estive conversando com um mui querido professor sobre figuras estúpidas que sentem necessidade de atenção especial, um atendimento exclusivo em nobres estabelecimentos – que coincidentemente foram construídos por eles e para eles. Criaturas de personalidade tão execrável que chega a ser gozado. Lembrei-me, de chofre, de um personagem magnífico criado por Dostoiévski: Fomá Fomitch Opískin. Como ainda não tinha feito comentário a respeito d’A Aldeia de Stepántchikovo, aproveitei o diálogo com o professor e formulo aqui meus primeiros pensamentos sobre a obra.

downloadSerguei Aleksándrovitch, sobrinho do coronel Iegor Ilitch Rostániev, herdeiro da aldeia de Stepántchikovo, narra a história de seu querido titio vivendo com um insolente agregado que manda e desmanda majestosamente nos demais moradores da casa, incluindo-se o próprio coronel. Seu nome é Fomá Fomitch Opískin, um antigo bufão que, a todo custo, conquista o espaço de maior lisonja, sem nenhum título – chegando a ser chamado de “Vossa Excelência” -, e aí permanece até a morte, tendo o seu nome lembrado e respeitado durante anos.

Com doses bem humoradas, Dostoiévski constrói este romance dentro do seu período pós-exílio, publicando, em 1859, talvez uma das obras que mais representam criticamente o seu pensamento a respeito de tipões que acham que o maior de todos os poderes é o financeiro, desconhecendo por completo o poder mais prezado pelo autor, o conhecimento. Joseph Frank, biógrafo de Dostoiévski, descreve a revolta e o desprezo deste para com os nobres, assim intitulados apenas pelo dinheiro.

“A irmã mais velha da mãe de Dostoiévski, Aleksandra Fiódorovna, ingressara, por casamento, numa família muito parecida com a sua própria família de nascimento. Seu marido, A. M. Kumânin, era comerciante de origem, […]. Os Kumânin faziam parte do grupo das famílias de comerciantes cuja riqueza lhes permitia competir com o estilo de vida opulento da pequena nobreza. […] A atitude do próprio Dostoiévski para com os Kumânin, que sempre considerou como gente vulgar apenas interessada em dinheiro, certamente refletia a opinião do próprio pai.”

Com dezoito capítulos, divididos em duas partes, a trama realiza-se sempre em torno do tão “aclamado” herói. Diante disso, pressupõe-se que Dostoiévski tenha feito desta forma como uma espécie de crítica à sociedade da época – que não se distancia da atual – que visa unicamente o “ter” ao “ser”.

Curiosamente, Lucas Simone, tradutor do livro A Aldeia de Stepántchikovo pela Editora 34, aponta em seu artigo que Dostoiévski tramava fazer do romance, antes, uma peça de teatro.

“gostei tanto do herói […] que larguei a forma de comédia e passei a fazer um ‘romance cômico’.”

E, em correspondência com o irmão Mikhail, decreta:

“Tenho certeza de que é minha melhor obra. Nela coloquei minha alma, minha carne e meu sangue.”

De fato, uma obra fantástica. Com imenso prazer que a recomendo.

Bibliografia

DOSTOIÉVSKI, Fiódor. A aldeia de Stepántchikovo e seus habitantes. Editora 34, São Paulo. 2012.

FRANK, Joseph. Dostoiévski: as sementes da revolta, 1821-1849. Editora da Universidade de São Paulo, São Paulo. 1999.

A viagem do elefante, Saramago

Pobre Salomão! Apenas mais um artefato nas mãos dos poderosos. Destinado a caminhar léguas e mais léguas,

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de Portugal à Viena, para no fim morrer, e se lhe aproveitarem as patas como porta-objetos, por exemplo, guarda-chuvas, bengalas, bastões e sombrinhas de verão. Salomão tornou-se Solimão, além de outros empecilhos que teve que passar. Mas por que tanto sentimentalismo envolto na figura deste… “animal”?

José Saramago, grande mestre da literatura internacional, um dos portugueses mais aclamados – e mais polêmicos – do século XX, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1998, conseguiu transformar o nome de um simples restaurante numa história lendária e cheia de humor, ironia e heroísmo.

“Se Gilda Lopes Encarnação não fosse leitora de português na Universidade de Salzburgo, se eu não tivesse sido convidado para ir falar aos alunos, se Gilda não me tivesse convidado para jantar no restaurante O Elefante, este livro não existiria.”

Conta a história que um elefante, em pleno século XVI, em 1551, viaja de Lisboa a Viena. Imediatamente Saramago toma-a em suas habilidosas mãos e, depois de lapidada, nos entrega mais este precioso diamante de sua coletânea de romances.

Sem mais delongas, voltemos à questão do parágrafo inicial. Por que tanto sentimentalismo?

Creio, caríssimo leitor, que você deva estar se perguntando sobre o porquê do uso das aspas na palavra animal, o que, prontamente, lhe responderei. Não se trata de um mero animal, e sim de um elefante. Superficial demais? Ora, meu caro, entenda o simbolismo em torno de nosso nobilíssimo herói. Consta, em torno de toda a sua genealogia, que o referido animal possui uma das mais raras e potenciais memórias do seu reino, combinando perfeitamente com a narrativa. Aproveitando o gancho, fazendo uma relação com a questão, respondo-vos que, por meio de metáforas, tudo está direcionado a pontos humanistas a Salomão.

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É fácil de entender se acaso tiveres um animal de estimação, não precisa ser um elefante, mas um cachorro, um gato, um papagaio, uma cobra, um aracnídeo, um bicho-de-pé, uma pulga, uma bactéria, um estafilococos, um vírus etc., etc. Notório também será a forma com que te relacionas com ele. Trata-o com um sentimento ímpar, possivelmente compará-lo-ás a um filho seu. Há quem deixe heranças em seus nomes. E os nomes – ah! os nomes – são os mais sofisticados. Com efeito, não se trata de “um”, mas de “o”.

Tal qual o são, portanto, assim somos nós, humanos.

Salomão fez sua parte como um enorme paquiderme cumprindo seu destino, realizando “milagres”, salvando vidas, sempre acompanhado de seu cornaca, Subhro, tornando-se herói, louvado com graça para, em seguida, cair no esquecimento. Assim dizia o mestre Saramago:

“Assim é a lei da vida: triunfo e esquecimento.”

E nós? A que estamos destinados? Triunfo? Esquecimento? Instigo-vos a pensar por si mesmos.

Bibliografia

SARAMAGO, José. A viagem do elefante. Companhia das Letras.

A dócil, Dostoiévski

“A Dócil” é uma amostra da versatilidade do grande escritor Fiódor Dostoiévski, que não ficou conhecido por narrativas curtas e sim, grandes romances. Mas podemos ver a escrita magistral do autor também nesse gênero. A novela foi publicada em 1876, em Diário de um escritor, revista mensal publicada pelo autor entre 1876 e 1881. Dostoiévski afirma em um comentário escrito para a mesma publicação que a escreve depois de ler sobre o suicídio de uma moça que foi encontrada com uma imagem da Virgem nas mãos. O autor também a intitula fantástica, no prólogo da edição que li e justifica a escolha pela forma da própria narrativa, ao invés da comum existência de fatos misteriosos e sobrenaturais.

A novela que nos apresenta um homem de meia idade que acaba de perder sua mulher, muitos anos mais jovem. A moça tira a própria vida e o momento que presenciamos são os minutos posteriores à sua morte. O homem nos fala acerca dos seus pensamentos e sentimentos nesse momento tão difícil de sua vida.

A narrativa é escrita em primeira pessoa e o autor faz uso constantemente do monólogo interior. Chega a algumas vezes também ao fluxo de consciência. Mas algumas vezes, percebemos o narrador falando com um interlocutor imaginário. A forma escolhida por Dostoiévski de escrita aproxima o leitor do personagem principal, pois este fica tão próximo ao homem que chega a acompanhar seus pensamentos ou a estar presente de uma forma invisível no ambiente. A dança caótica que seguimos através das falas do personagem procura construir uma mente naturalmente bagunçada, por ser a natureza do pensamento, mas também pelo momento que ele está passando no momento da novela.

Mas o que há comigo. Se eu continuar assim, quando é que vou juntar tudo num ponto? Depressa, depressa – não é absolutamente nada disso, ah meu Deus! (p.27).duas narrativas

O texto começa com reticências (…). Isso me colocou num imenso buraco. Passei a leitura toda a me perguntar no meio de que eu tinha entrado. Como fui parar em um momento tão íntimo da vida de alguém? Sempre me perguntei como eu reagiria se perdesse alguém tão próximo… Viver esse momento junto com o narrador foi bastante forte para mim e me tocou profundamente. Sofri junto com ele desde o início, apesar de estranhar um pouco a diferença tamanha de idades.

O silêncio da moça é algo que chama bastante atenção. Ficamos tão próximos do homem, mas não conseguimos nos conectar com ela. Nosso contato perpassa a visão do seu marido. Só o que escutamos dela é o silêncio… O leitor mantém com ela uma relação de amor e ódio, pois o que conseguimos pegar dela nos escapa pelos dedos. Suas constantes provocações nos faziam pensar se ela estaria fingindo. Mas e o silêncio? Este silêncio significa o vazio que ela estava vivendo? Uma frase chamou bastante atenção que somente no fim escutamos de sua boca. Única frase sólida de sua boca.

-E eu pensava que o senhor me deixaria assim- (p. 74).

A relação com o narrador com o leitor é estreita demais para que se apreenda totalmente a moça. E no fim, um último grito de desespero!

Não, é sério, quando amanhã a levarem embora, o que vai ser de mim? (p. 87).

Dostoiévski, Fiódor. Duas narrativas Fantásticas: A dócil e O sonho de um homem ridículo. Tradução de Vadim Nikitin. São Paulo: Ed. 34, 2003.