A dócil, Dostoiévski

“A Dócil” é uma amostra da versatilidade do grande escritor Fiódor Dostoiévski, que não ficou conhecido por narrativas curtas e sim, grandes romances. Mas podemos ver a escrita magistral do autor também nesse gênero. A novela foi publicada em 1876, em Diário de um escritor, revista mensal publicada pelo autor entre 1876 e 1881. Dostoiévski afirma em um comentário escrito para a mesma publicação que a escreve depois de ler sobre o suicídio de uma moça que foi encontrada com uma imagem da Virgem nas mãos. O autor também a intitula fantástica, no prólogo da edição que li e justifica a escolha pela forma da própria narrativa, ao invés da comum existência de fatos misteriosos e sobrenaturais.

A novela que nos apresenta um homem de meia idade que acaba de perder sua mulher, muitos anos mais jovem. A moça tira a própria vida e o momento que presenciamos são os minutos posteriores à sua morte. O homem nos fala acerca dos seus pensamentos e sentimentos nesse momento tão difícil de sua vida.

A narrativa é escrita em primeira pessoa e o autor faz uso constantemente do monólogo interior. Chega a algumas vezes também ao fluxo de consciência. Mas algumas vezes, percebemos o narrador falando com um interlocutor imaginário. A forma escolhida por Dostoiévski de escrita aproxima o leitor do personagem principal, pois este fica tão próximo ao homem que chega a acompanhar seus pensamentos ou a estar presente de uma forma invisível no ambiente. A dança caótica que seguimos através das falas do personagem procura construir uma mente naturalmente bagunçada, por ser a natureza do pensamento, mas também pelo momento que ele está passando no momento da novela.

Mas o que há comigo. Se eu continuar assim, quando é que vou juntar tudo num ponto? Depressa, depressa – não é absolutamente nada disso, ah meu Deus! (p.27).duas narrativas

O texto começa com reticências (…). Isso me colocou num imenso buraco. Passei a leitura toda a me perguntar no meio de que eu tinha entrado. Como fui parar em um momento tão íntimo da vida de alguém? Sempre me perguntei como eu reagiria se perdesse alguém tão próximo… Viver esse momento junto com o narrador foi bastante forte para mim e me tocou profundamente. Sofri junto com ele desde o início, apesar de estranhar um pouco a diferença tamanha de idades.

O silêncio da moça é algo que chama bastante atenção. Ficamos tão próximos do homem, mas não conseguimos nos conectar com ela. Nosso contato perpassa a visão do seu marido. Só o que escutamos dela é o silêncio… O leitor mantém com ela uma relação de amor e ódio, pois o que conseguimos pegar dela nos escapa pelos dedos. Suas constantes provocações nos faziam pensar se ela estaria fingindo. Mas e o silêncio? Este silêncio significa o vazio que ela estava vivendo? Uma frase chamou bastante atenção que somente no fim escutamos de sua boca. Única frase sólida de sua boca.

-E eu pensava que o senhor me deixaria assim- (p. 74).

A relação com o narrador com o leitor é estreita demais para que se apreenda totalmente a moça. E no fim, um último grito de desespero!

Não, é sério, quando amanhã a levarem embora, o que vai ser de mim? (p. 87).

Dostoiévski, Fiódor. Duas narrativas Fantásticas: A dócil e O sonho de um homem ridículo. Tradução de Vadim Nikitin. São Paulo: Ed. 34, 2003.