O Sonho de um Homem Ridículo, Fiódor Dostoiévski.

“Eu sou um homem ridículo.”

Assim se inicia a trama de um homem que decide cometer suicídio. Minutos antes, já tudo pronto para o ato, adormece e tem um sonho que muda a sua vida. Ao despertar, desiste de se matar e sai feliz da vida com uma missão em mente, a de mudar o mundo. Fim! Mas o que há de tão ridículo – ou tão especial –nesta pequena narrativa de Dostoiévski?

Ora! Como não achar ridículo um homem que praticamente se considera…download (1) Calma, calma, vamos por partes. Bem, sabemos como a história começa. Em primeira pessoa, o narrador se autodescreve como “ridículo”, palavra esta que, facilmente, encontramos no texto. Diante disso, em virtude de pesquisas em dicionários, o mencionado vocábulo remete àquilo que é digno de riso, de zombaria, escárnio; que tem pouco valor, insignificante, irrisório. O indivíduo assim intitula-se por N motivos, mas o pior de todos, segundo o próprio, é por tornar-se indiferente. Essa pareceu ser a gota d’água.

Andando, indiferente, à noite, pela rua, avista uma estrela brilhando ao longe no céu. De repente, a decisão: “me matar naquela noite.”. Por quê?Existem milhões e milhões de teorias astronômicas e psicológicas que expliquem a referida associação à estrela no enredo, mas deixemos isso para os mais entendidos do assunto. Entretanto, não significa que não me arriscarei a comentar, como um leigo, este fragmento narrado. Mas não nos apressemos, vamos continuar.

Eis que, diante de sua indiferença e decisão repentinas, surge uma garotinha pequena, clamando ajuda pela sua “mámatchka”, sua mamãe, ao homem. Ridículo e indiferente ignora completamente a menina, que sai desesperada atrás de outra pessoa que a socorra. Tão inocente gesto dará um novo sentido ao ridículo, tornando-o fantástico… Ou seria o contrário?

“É claro que teria me matado, se não fosse aquela menina.”

Dor. Três letrinhas unidas formando uma palavra de significado tão sentimental. Pode ser usado para expressar uma pancada, um impacto, um edema, uma perna quebrada, um dente nascendo, uma unha encravada, um ouvido estourado e outras ações mais, porém onde nosso herói sentiu foi demasiado intensa. Foi na consciência. Devido a sua atitude com a garotinha, surgiram várias questões, e foram tantas, tantas, que o homem adormece, sentado à mesa na poltrona.

“Os sonhos, como se sabe, são uma coisa extraordinariamente estranha: […] move-os não a razão, mas o desejo, não a cabeça, mas o coração, […].”

Em seguida o sonho.

“De repente sonhei que apanho o revólver e, sentado, aponto-o direto para o coração – para o coração, e não para a cabeça; […].”

Precisamente, em poucas palavras: porque apelava, inconscientemente, para a emoção e não à razão, atirou no próprio peito acertando o coração, órgão idealizador de nossos sentimentos, “ativando-o”, como veremos mais adiante.

Após o tiro, o homem jaz em um caixão, estando cego e mudo. Enterrado por seus vizinhos, nada espera. Mas de repente dá-se início a uma tortura.

“Mas de repente no meu olho esquerdo fechado caiu, infiltrada pela tampa do caixão, uma gota d’água, depois de um minuto outra, depois de mais um minuto a terceira, e assim por diante, sempre de minuto em minuto.”

E eis que uma criatura o arranca de seu estado mortificado, levando-o direto a um ponto reluzente no espaço, a Terra, mas uma Terra diferente, uma “terra não profanada pelo pecado original”.

De acordo com o cristianismo, a ideia que se tem de paraíso é a seguinte: um mundo de paz, onde não há discórdia nem desunião, pelo contrário, o amor prospera, as pessoas se dão bem e são livres para viver em harmonia com os animais, com a natureza etc. Assim era a nova Terra onde o homem sonhador estava, e ele, espantado com a novidade, não sabia distinguir aquilo que, talvez, fosse, digamos, inverossímil. Entretanto, real ou imaginário, aconteceu uma catástrofe. Tomado por referência cristã – e éessa mesma a de todo o sonho e, consequentemente, de toda a história – digo que “a serpente deu o fruto proibido à Eva” (ver Gênesis).

“O fato é que eu… perverti todos eles!”

Disto pode-se imaginar o mínimo que possa ter acontecido. Eles aprenderam a mentir, a brigar, dividiram-se em grupos, cada qual com sua bandeira, novas línguas foram formadas, surgiu a ciência, as leis e suas consequências, surgiram os justos e a escravidão, surgiram as religiões… O caos estava formado. Porém, sofrendo pela barbárie que assolara o novo mundo, o homem tomara uma postura diferente, a postura de um Salvador, mais precisamente, talvez – pode ser que eu esteja enganado – de Jesus (ver João).

“Eu andava no meio deles, torcendo as mãos, e chorava diante deles, mas os amava, […]. Dizia-lhes que eu é que tinha feito tudo isso, só eu; eu é que lhes tinha trazido a perversão, a doença e a mentira! Implorava-lhes que me pregassem numa cruz, […].”

Suas declarações foram tantas que passaram a vê-lo como perigoso, ameaçaram-no trancá-lo num hospício. A dor lhe foi tamanha que sentiu que ia morrer, mas eis uma surpresa.

“… eu senti que estava prestes a morrer, e foi aí… bem, foi aí que eu acordei.”

E aqui vai minha teoria astro-psicológica. Sabe quando se está prestes a desistir de tudo, e você acha que já não há mais sentido na vida, e, de repente, surge a bendita “luz no fim do túnel”? Pois bem, essa é a estrela que nosso ridículo – ou fantástico – homem vê, e que por muito pouco quase fica sem entender a verdadeira mensagem. Este parágrafo está muito cristão, mas não há como fugir, pois o homem saíra, e sai, para pregar a verdade, para pregar o amor.

“O principal é – ame aos outros como a si mesmo, eis o principal, só isso, não é preciso nem mais nem menos: imediatamente você vai descobrir o modo de se acertar.”

Ao final, o seguinte fragmento:

“E, quanto àquela menininha, eu a encontrei… E vou prosseguir! E vou prosseguir!”

Devido à marca gramatical, o homem está no tempo presente, como se manifestasse um questionamento em cada leitor, do tipo “E você, vem comigo?”.

Vívido em cada narrativa criada, Dostoiévski apresenta para nós mais este monólogo que, devido à opção religiosa do autor, aparenta ser mais um de seus romances autobiográficos. Divirtam-se com a leitura!

Bibliografia

DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Duas narrativas fantásticas: A dócil e O sonho de um homem ridículo. São Paulo: Editora 34, 2003.

BECHARA, Evanildo (organizador).Dicionário escolar da Academia Brasileira de Letras: língua portuguesa. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2011.

BÍBLIA SAGRADA.São Paulo:Editora Paulus, 1991.