Memórias do Subterrâneo – Fiódor Dostoiévski

IMG_20150601_202006Antes de qualquer coisa, perdoem-me os leitores pela demora em escrever novas impressões (quase resenhas) para o blog.

Em 1866, Crime e castigo teve sua estréia no mundo literário pela primeira vez com seu implacável personagem Raskólnikov, mediador de um assassinato a uma velha agiota e sua irmã, o que lhe causa um forte peso na consciência, levando-o a um desespero psicológico, como vemos no decorrer da narrativa dostoievskiana. Entretanto, em 1864, Memórias do Subterrâneo (ou Notas do Subterrâneo, ou Memórias do Subsolo, como preferirem) também fora lançado. Um livro curto, com um pouco mais de cem páginas. Porém seu conteúdo é desolador.

“Sou um homem doente… Sou mau. Nada tenho de simpático.”

Assim começa as memórias deste homem, o homem subterrâneo. Aos quarenta anos de idade, após receber uma herança de seis mil rublos, fica recluso num canto e se mete a escrever os seus piores e mais sombrios pensamentos, que lhe serão eternos.

Por princípio, o homem subterrâneo é um homem revoltado, mas também um prisioneiro de si mesmo. Anseia por liberdade ao mesmo tempo em que prefere a prisão; confuso, porém seus argumentos são letais. A todo instante dirige-se aos “senhores”, a quem ele próprio dá voz. Assume, em si, um amor-próprio que foge daquilo que entendemos por amor. É genuinamente mau, e não se importa com isso.

Mas a causa dessa maldade está nas “leis da Natureza”, em que ele metaforiza foto0047_001[1]como uma “muralha de pedras”, incapaz de derrubá-las. Toma como exemplo o cálculo matemático, dois mais dois é igual a quatro.

“ – Mas, meus Deus, que me importam a mim as leis da Natureza, ou as da Aritmética, se essas leis e os seus dois e dois quatro me desagradam por qualquer coisa? É certo que não hei de deitar abaixo essa muralha, porque as minhas fôrças não chegam; mas não hei de resignar-me só porque diante de mim se levante uma muralha de pedra que as minhas fôrças não possam derrubar.”

Sua angústia é tamanha. Reclama do homem que constrói e traça caminhos, mas que, por finda força, envereda pela loucura e destruição. É egoísta. Aborrece-se facilmente por nada fazer, mas se arrisca escrevendo suas memórias. Dignifica-se (ou não) trabalhando nessa obra. Mas tudo isso lhe é mísero, irrisório, desprezível. Por quê?

Porque tem medo. Medo de dar um passo maior que o imaginado. Medo de proferir a palavra libertadora, causadora de seus maiores tormentos.

Porque sofre. Sofre por medo de dar esse passo inimaginável, passo este que já lhe atina a consciência.

A todo o momento, pareço entrar em contradição ao escrever as notas a respeito deste romance, mas não, não sou eu. Quero dizer, sou e não sou. Por menor incentivo, atrevo-me a ser um homem subterrâneo. Mas, afinal: quem é esse homem subterrâneo?

No início destas impressões fiz um adendo à temporalidade das obras Crime e castigo e Memórias do subterrâneo, esta lançada em 1864 e aquela em 1866. Ambas estão relacionadas. Raskólnikov, em Crime e castigo, diferente do homem subterrâneo, não tem medo desse passo, profere a palavra. Age! Comete um crime, e o castigo logo vem à tona.

Pergunto-me sobre esse homem subterrâneo e esse Raskólnikov, que se apoderaram de nossos tempos e transformaram nossas camadas sociais, ultrapassando todos os limites do humano. Quê somos nós? Anti-heróis do submundo, heróis da razão ou vilões da emoção? Deixo as perguntas em aberto. Boa leitura.

Bibliografia

DOSTOIÉVSKI, Fiódor M. “Memórias do Subterrâneo”. In: Obra completa – Vol. II. Trad. Natália Nunes. RJ: Companhia Aguilar Editora, 1963.

Travessuras da menina má, de Mário Vargas Llosa

Mário Vargas Llosa chegou há pouco tempo em minha vida e já arrebatou-me. Sua escrita, suas escolhas lexicais, seus personagens, suas histórias fizeram com que eu descobrisse o que o mundo havia descoberto em 2010, ano em que o autor ganhou o prêmio Nobel de Literatura.

Travessuras da menina má me parece ser seu livro mais famoso. Talvez porque conte uma história de amor. Apesar de os amantes relatados não serem personagens comuns do gênero. Ricardo e a menina má vivem um relacionamento bastante conturbado.

Logo no início do livro conhecemos Ricardo através de suas lembranças deIMG_20150413_220238[1] adolescente no bairro de classe alta Miraflores. O menino era tímido, mas possuía um grupo de amigos no bairro que era bastante tranquilo. Até que chegam duas irmãs do Chile que causam curiosidade nos meninos e receio nas meninas. As chilenitas se mostravam meninas modernas, pois andavam rebolando e usam roupas bastantes ousadas para a idade. Ricardo apaixona-se pela mais velha Lily. Eles andavam juntos como namorados, mas a menina nunca aceitou namorar com ele. A partir daí, Ricardo e a chilenita irão se reencontrar várias vezes.

A menina má age de uma forma bastante livre. Quanto a isso, não vejo problemas. Mas ao contrário de muitas pessoas, não senti empatia pela personagem. A forma como ela tratava o Ricardito me incomodou bastante. Não concordo com a relação feita por muitas pessoas de que uma mulher livre necessariamente precise tratar os homens como se eles fossem apenas objetos. As ações dela abrem uma discussão acerca do feminismo e da transgressão feminina. Lily seria uma mulher transgressora ou apenas uma mulher má?

Ricardito é um rapaz encantador, doce e apaixonado. Seu sonho é viver na cidade de Paris. Ele realiza seu sonho e torna-se tradutor já que sempre gostou de estudar línguas. Uma das partes mais interessantes é seu relato acerca do processo de tradução de textos literárias em russo.

O romance é narrada pelo próprio Ricardo, que nos conta sua deturpada relação de amor com a menina má. Suas lembranças e sentimentos vão nos dando peças do quebra-cabeça que é a personagem. O leitor precisa reconstruir a menina má através dos relatos de Ricardo. Fiquei me perguntando se ele seria um narrador infiel, mas a sutileza com que ele fala dela, sem agressões, sem repreensões, pode nos mostrar que Ricardo talvez a tenha amenizado, em vez de deturpar sua imagem.

O autor também toca em pontos da história peruana através do contato de Ricardo com seus parentes que continuam em Lima. Ele relata como a ditadura pesou na história peruana e como seu povo sofreu por conta dela. Também a desesperança da população diante dos problemas políticos. Outros temas abordados pelo autor passam pelo início da AIDS, pelo movimento hippie e outros assuntos ocorridos entre as décadas de 60 a 90.

A escrita de Llosa é enormemente influenciada por escritores franceses. Sua paixão por esse escritores e pela capital francesa é bastante visível. O erotismo por exemplo é fruto de sua admiração por Bataille e Sade.

Eu simplesmente amei cada cena, cada parte do livro.

Livro: Travessuras da menina má

Autor: Mario Vargas Llosa

Editora: Alfaguara

Tradução: Ari Roitman; Paulina Wacht.

Crime e Castigo, Fiódor Dostoiévski.

Durante entrevistas concedidas aos apresentadores de televisão e outros meios comunicativos, Mario download (1)Sergio Cortella, renomado filósofo, escritor, educador, palestrante e professor universitário brasileiro, explica de maneira simples e didática a respeito do conceito de ética.

“Ética é o conjunto de valores e princípios que você e eu usamos para decidir a três grandes questões da vida, que são: quero, devo, posso.
[…] Tem coisa que eu quero, mas não posso; tem coisa que eu posso, mas não devo; tem coisa que eu devo, mas não quero. […] Você tem paz de espírito quando aquilo que você quer é o que você pode e é o que você deve.”

Todos os nossos movimentos refletem nessas questões básicas. Uma escolha qualquer aponta considerável e, talvez, unicamente em nossa moral. A personagem do seguinte romance sabe muito bem o que isso significa.

Um estudante cometeu dois homicídios: ao primeiro o fez intencionalmente; ao segundo, um ato falho e um crime inesperado. Entretanto, diante dos fatos, não considera o que fez um crime, e sim um favor.

“… matou, mas se considera um homem honrado, despreza as pessoas, anda por aí como um anjo pálido.”

E agora?

20150213_124311Rodion Románovitch Raskólnikov, um dos personagens mais emblemáticos do meio literário, composto por Dostoiévski, vive o suplício de não saber o que fazer. Abandona a faculdade por não ter como se manter, vive como inquilino em um pequeno quarto alugado, em São Petersburgo, há tempos atrasado; desempregado, alimenta-se daquilo que a cozinheira e única empregada de sua senhoria lhe serve. O pouco dinheiro que consegue o tem em virtude de uma velha usurária, penhorando quase todos os seus pertences. Esta pequena burguesa se aproveita, com muito atrevimento, do jovem devedor, dando-lhe apenas alguns míseros copeques. Raskólnikov é um estudante obstinado e sério, mas ao deparar-se em tal circunstância, sujeitando-se a humilhações, vê-se desesperado e procura agir com indiferença em várias situações, mas fica perdido e acaba confundindo a si mesmo sobre o seu futuro.

Em crise, procura (e encontra) uma solução para resolver seu problema. Encontra-se com a velha usurária e a mata com golpes de machado. Eis o crime. No entanto, a irmã da velha, que nada tinha a ver com o momento, também acaba sendo assassinada, perturbando os planos de Raskólnikov. Eis o castigo.

Na verdade, o castigo vem logo em seguida. Pensando que todos da cidade são conhecedores não somente do que houve, mas de quem o fez, Raskólnikov adoece por muitos dias, tem acessos de fúria com os que se preocupam com sua doença e fica delirando por achar que está abandonado, sozinho com suas divagações.

Um dos pontos altos da trama (talvez o mais interessante de todos) envolve uma discussão em torno de crimes e criminosos e um artigo feito por Raskólnikov, onde ele divide os indivíduos em “ordinários” e “extraordinários”. Para Porfiri Pietróvitch, juiz de instrução de Raskólnikov, os “extraordinários” “têm o direito de cometer toda sorte de crimes e infringir a lei de todas as maneiras precisamente porque são extraordinários.”. Raskólnikov considera sua teoria como uma prática, até, às vezes salvadora para toda a humanidade.

Raskólnikov, perdido e doente com suas circunstâncias (e aqui eu faço alusão ao conceito de Ortega, onde diz: “eu sou eu e minha circunstância, e se não salvo a ela, não me salvo a mim.”), justifica sua atitude a um feito de Napoleão. Ele diz que não matou um ser humano, e sim um “piolho”, uma praga do meio social.

Diante de tantos tormentos e angústias, Raskólnikov confessa seu crime para a polícia. É condenado, castigado, mas tem a remissão do seu crime pelo amor. Entretanto, este tema é parte de outro relato, pois o que se envereda na obra já está concluído.

Numa narrativa fantástica em terceira pessoa, o gênio da literatura russa do século XIX (pelo menos pra mim), Fiódor Dostoiévski, põe em xeque a questão do indivíduo no seio da modernidade em mais esta obra magnífica, Crime e Castigo, apelando para aspectos éticos e morais, revelando um contraste nos novos pensamentos da humanidade: o niilismo e a necessidade da fé.

Bibliografia

CORTELLA, Mario Sergio. O que é ética? In: https://www.youtube.com/watch?v=vjKaWlEvyvU.

DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Crime e castigo. Tradução, prefácio e notas de Paulo Bezerra; gravuras de Evandro Carlos Jardim. São Paulo: Ed. 34, 2001.

ORTEGA Y GASSET, J. Meditações do Quixote. São Paulo: Livro Ibero americano, 1967.

Carrie, a estranha, de Stephen King

Carrie, a estranha é o primeiro livro escrito pelo Stephen King. Durante seu processo de escrita, ele quase desiste de escrever. Mas graças a sua esposa resolve começar de novo.  O romance nos conta a história de Carrie, uma adolescente aparentemente normal, mas que desenvolve poderes psíquicos logo depois sua menarca. Suas colegas tiram brincadeiras de mau gosto atirando absorventes na menina que assustada sangra sem saber porque. Ficamos conhecendo também a família de Carrie, parte importante da formação da sua personalidade. Todas as narrativas nos ajudam a saber como ocorreu o maior acontecimento de uma  pequena cidade dos Estados Unidos.

A forma que o autor estruturou o romance é bastante interessante. O leitor precisa juntar os pedaços através de depoimentos, reportagens, estudos científicos e trechos decarrie relatos ficamos para descobrir o que levou Carrie a assassinar tantas pessoas em seu baile de formatura. Cada pedaço funciona como uma peça do quebra-cabeça que montamos para compreender a moça.

Os personagens são muito bem construídos. Carrie torna-se vítima aos olhos de quem acompanha toda a história. Cada ato e gesto seu nos apresenta uma faceta de sua personalidade que foi sendo construída através dos acontecimentos e da relação com sua mãe.

O thriller psicológico de King trouxe muitos novos traços para o gênero, como sua protagonista adolescente, sua forma de estruturar o romance. Sua escrita é fluída e empolgante. O leitor penetra na história e só consegue sair no fim do livro. É um livro de leitura bem rápida e muito divertido. Mas ainda não senti o King assustador.

A Redoma de Vidro, Sylvia Plath

Confesso que demorei para escrever sobre esse livro por ele me falar de algo muito pessoal. Pensei e repensei se escreveria de uma forma imparcial, mas percebi que soaria falso já que meu processo de leitura foi tão pessoal. Sei o que Esther Greenwood sentiu ao longo de todo o processo narrado pela Sylvia Plath. Passo por isso todos os dias. Durante todo esse mês, esse livro viveu em mim.  E Sylvia Plath sentiu o mesmo.

Há muitos pontos em comum entre o romance e a vida da autora. Sylvia sofria de depressão, lutou contra a doença durante toda a sua vida, mas na manhã do dia 11 de fevereiro de 1963, ela vedou o quarto dos filhos e se asfixiou com gás de cozinha. Além disso, recebeu a posição de editora de uma revista em Nova York, assim como a sua personagem. E passou por situações bem difíceis por lá. A autora era adepta do gênero “confessional”. A redoma de vidro foi seu único romance, apesar de ela também ser poetisa e contista.

redomaO romance nos conta a história de Esther Greenwood, uma moça formada em letras que sonhava em ser escritora. No início, ficamos sabendo que ela é convidada para um estágio em uma importante revista de Nova York junto com outras meninas. Assim, ela viaja para a cidade para ficar um mês. Mas as coisas não saem como ela pensa. Algumas confusões acontecem, a depressão ganha em alguns dias. Ficamos conhecendo também algumas de suas memórias. Mas quando volta para sua cidade e descobre que não passou no curso de escrita criativa que desejava, entra em crise e vai parar em uma clínica psiquiátrica.

A metáfora usada pela autora no título explica muito bem como quem sofre de depressão se sente. A doença sufoca, segrega, afasta. Não importa quantas vezes você tente explicar, ninguém entende. Você sente como se estivesse a parte. Sente como se estivesse paralisada. E sente que nada vai quebrar a redoma.

A história é narrada em 1ª pessoa pela personagem principal. Isso dá um tom bastante intimista ao relato. Parecia que eu estava lá. Esther tem a minha idade, cursou o curso que faço agora e sente as mesmas dificuldades que eu. Não tinha como não ser arrebatada pelo romance. A escrita de Sylvia é uma delícia, pois a leitura flui bastante, apesar do conteúdo ser tão pesado. O contraste entre a escrita leve com o relato pesado transforma a experiência em algo único.

A descrição da estada de Esther na clínica mexeu bastante comigo. Fiquei me perguntando se internação ajuda nesses casos. A descrição parte de uma época específica, onde ainda se usava terapia de choque, não tenho certeza, mas espero que não seja mais usada. Mas ao mesmo tempo, pensei se ficar sozinha sem pressão de ninguém não seria bom. É uma luta diária para ter forças para não ficar inerte perante a vida. Esther e Sylvia tinham que lutar todos os dias para sair da cama.

Agora concordo com alguns amigos que esse não deveria ter sido o primeiro livro do ano. Fiquei mal, ainda estou assimilando tudo o que li e senti a partir desse romance tão impactante. Mas apesar disso, o livro foi bastante acalentador, pois pude refletir sobre a depressão e minha vida em geral. A redoma de vidro é um livro muito bem escrito, bastante intimista e reflexivo. Talvez possa ajudar as pessoas a explicar o que sentem as pessoas com depressão.

A edição linda da Biblioteca Azul trouxe de volta a acessibilidade de muitos leitores a obra. Eu não conhecia a obra até o lançamento e fiquei muito feliz por agora estar acessível ao grande público e com uma edição caprichada e linda.