A viagem do elefante, Saramago

Pobre Salomão! Apenas mais um artefato nas mãos dos poderosos. Destinado a caminhar léguas e mais léguas,

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de Portugal à Viena, para no fim morrer, e se lhe aproveitarem as patas como porta-objetos, por exemplo, guarda-chuvas, bengalas, bastões e sombrinhas de verão. Salomão tornou-se Solimão, além de outros empecilhos que teve que passar. Mas por que tanto sentimentalismo envolto na figura deste… “animal”?

José Saramago, grande mestre da literatura internacional, um dos portugueses mais aclamados – e mais polêmicos – do século XX, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1998, conseguiu transformar o nome de um simples restaurante numa história lendária e cheia de humor, ironia e heroísmo.

“Se Gilda Lopes Encarnação não fosse leitora de português na Universidade de Salzburgo, se eu não tivesse sido convidado para ir falar aos alunos, se Gilda não me tivesse convidado para jantar no restaurante O Elefante, este livro não existiria.”

Conta a história que um elefante, em pleno século XVI, em 1551, viaja de Lisboa a Viena. Imediatamente Saramago toma-a em suas habilidosas mãos e, depois de lapidada, nos entrega mais este precioso diamante de sua coletânea de romances.

Sem mais delongas, voltemos à questão do parágrafo inicial. Por que tanto sentimentalismo?

Creio, caríssimo leitor, que você deva estar se perguntando sobre o porquê do uso das aspas na palavra animal, o que, prontamente, lhe responderei. Não se trata de um mero animal, e sim de um elefante. Superficial demais? Ora, meu caro, entenda o simbolismo em torno de nosso nobilíssimo herói. Consta, em torno de toda a sua genealogia, que o referido animal possui uma das mais raras e potenciais memórias do seu reino, combinando perfeitamente com a narrativa. Aproveitando o gancho, fazendo uma relação com a questão, respondo-vos que, por meio de metáforas, tudo está direcionado a pontos humanistas a Salomão.

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É fácil de entender se acaso tiveres um animal de estimação, não precisa ser um elefante, mas um cachorro, um gato, um papagaio, uma cobra, um aracnídeo, um bicho-de-pé, uma pulga, uma bactéria, um estafilococos, um vírus etc., etc. Notório também será a forma com que te relacionas com ele. Trata-o com um sentimento ímpar, possivelmente compará-lo-ás a um filho seu. Há quem deixe heranças em seus nomes. E os nomes – ah! os nomes – são os mais sofisticados. Com efeito, não se trata de “um”, mas de “o”.

Tal qual o são, portanto, assim somos nós, humanos.

Salomão fez sua parte como um enorme paquiderme cumprindo seu destino, realizando “milagres”, salvando vidas, sempre acompanhado de seu cornaca, Subhro, tornando-se herói, louvado com graça para, em seguida, cair no esquecimento. Assim dizia o mestre Saramago:

“Assim é a lei da vida: triunfo e esquecimento.”

E nós? A que estamos destinados? Triunfo? Esquecimento? Instigo-vos a pensar por si mesmos.

Bibliografia

SARAMAGO, José. A viagem do elefante. Companhia das Letras.