A Aldeia de Stepántchikovo e seus Habitantes, Fiódor Dostoiévski

Certa noite estive conversando com um mui querido professor sobre figuras estúpidas que sentem necessidade de atenção especial, um atendimento exclusivo em nobres estabelecimentos – que coincidentemente foram construídos por eles e para eles. Criaturas de personalidade tão execrável que chega a ser gozado. Lembrei-me, de chofre, de um personagem magnífico criado por Dostoiévski: Fomá Fomitch Opískin. Como ainda não tinha feito comentário a respeito d’A Aldeia de Stepántchikovo, aproveitei o diálogo com o professor e formulo aqui meus primeiros pensamentos sobre a obra.

downloadSerguei Aleksándrovitch, sobrinho do coronel Iegor Ilitch Rostániev, herdeiro da aldeia de Stepántchikovo, narra a história de seu querido titio vivendo com um insolente agregado que manda e desmanda majestosamente nos demais moradores da casa, incluindo-se o próprio coronel. Seu nome é Fomá Fomitch Opískin, um antigo bufão que, a todo custo, conquista o espaço de maior lisonja, sem nenhum título – chegando a ser chamado de “Vossa Excelência” -, e aí permanece até a morte, tendo o seu nome lembrado e respeitado durante anos.

Com doses bem humoradas, Dostoiévski constrói este romance dentro do seu período pós-exílio, publicando, em 1859, talvez uma das obras que mais representam criticamente o seu pensamento a respeito de tipões que acham que o maior de todos os poderes é o financeiro, desconhecendo por completo o poder mais prezado pelo autor, o conhecimento. Joseph Frank, biógrafo de Dostoiévski, descreve a revolta e o desprezo deste para com os nobres, assim intitulados apenas pelo dinheiro.

“A irmã mais velha da mãe de Dostoiévski, Aleksandra Fiódorovna, ingressara, por casamento, numa família muito parecida com a sua própria família de nascimento. Seu marido, A. M. Kumânin, era comerciante de origem, […]. Os Kumânin faziam parte do grupo das famílias de comerciantes cuja riqueza lhes permitia competir com o estilo de vida opulento da pequena nobreza. […] A atitude do próprio Dostoiévski para com os Kumânin, que sempre considerou como gente vulgar apenas interessada em dinheiro, certamente refletia a opinião do próprio pai.”

Com dezoito capítulos, divididos em duas partes, a trama realiza-se sempre em torno do tão “aclamado” herói. Diante disso, pressupõe-se que Dostoiévski tenha feito desta forma como uma espécie de crítica à sociedade da época – que não se distancia da atual – que visa unicamente o “ter” ao “ser”.

Curiosamente, Lucas Simone, tradutor do livro A Aldeia de Stepántchikovo pela Editora 34, aponta em seu artigo que Dostoiévski tramava fazer do romance, antes, uma peça de teatro.

“gostei tanto do herói […] que larguei a forma de comédia e passei a fazer um ‘romance cômico’.”

E, em correspondência com o irmão Mikhail, decreta:

“Tenho certeza de que é minha melhor obra. Nela coloquei minha alma, minha carne e meu sangue.”

De fato, uma obra fantástica. Com imenso prazer que a recomendo.

Bibliografia

DOSTOIÉVSKI, Fiódor. A aldeia de Stepántchikovo e seus habitantes. Editora 34, São Paulo. 2012.

FRANK, Joseph. Dostoiévski: as sementes da revolta, 1821-1849. Editora da Universidade de São Paulo, São Paulo. 1999.