Orlando, Virginia Woolf

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Orlando é um livro que deseja sua entrega… Por isso mesmo minha leitura foi lenta. Fui me deliciando em cada palavra e imagem construída por Virginia. Ao conhecer o Orlando, me apaixonei… Além de ele ser um rapaz muito bonito, segundo a descrição:

“O vermelho de suas faces era coberto de uma penugem de pêssego; a penugem do buço era apenas um pouco mais densa que a das faces. Os lábios eram finos e levemente repuxados sobre dentes de uma deliciosa brancura de amêndoa. Nada perturbava o breve, tenso vôo do sagitado nariz; o cabelo era escuro, as orelhas pequenas e bem unidas à cabeça. (…), temos que reconhecer que possuía olhos como violetas encharcadas, tão grandes que a água parecia chegar às bordas e alargá-los; e uma testa como a curva de uma cúpula de mármore, apertada entre os dois brancos medalhões das têmporas.” p. 10

Orlando também é pertencente à nobreza, e além de tudo apaixonado por literatura. A história narra a vida desse personagem apaixonante e enigmático. A construção do personagem beira ao surreal, mas também possui toques de realismo ao retratar a sociedade nobre com todos os seus luxos e suas hipocrisias.

O tempo na obra não segue a lógica racional. Orlando vive mais de trezentos anos. Sua biografia inicia no reinado da rainha Elizabeth I e vai até depois da primeira guerra mundial. Virginia busca reconstruir o conceito de romance ao desconstruir o tempo cronológico na obra.

O que mais impacta a maioria de seus leitores é a mudança de sexo de Orlando. O que é visto pelo personagem como algo comum. Fato esse ocorrido como uma forma de mostrar a visão das mulheres da época, principalmente em relação a mulheres escritoras. Pois Lady Orlando discute em várias passagens sua relação com a literatura.

Li em algumas resenhas que o livro de Virginia Woolf era chato. Fiquei chocada, pois somente alguém com pouca bagagem literária diria algo assim. Orlando é uma obra densa, mas que nos enriquece com reflexões acerca dos sexos, literatura e acerca da vida em geral. Orlando foi ser visto também, por muitos críticos, como uma autobiografia da autora.

O que mais me interessou na obra foi sua estrutura onírica, pois Orlando nos mostra uma forma de relato que nos lembra de nossos sonhos, apesar dos relatos históricos do personagem.

Enfim, se você deseja um estímulo literário prazeroso que te coloque dentro de um universo Onírico, esse é um livro que vale a pena…

O Diabo, Tolstoi

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“E na realidade, se Eugênio Irtieniev era um doente mental, então todos os homens são doentes mentais do mesmo modo; e os mais gravemente doentes da mente são sem dúvida aqueles que descobrem nos outros sintomas de loucura que não descobrem em si mesmos.”

Em tempos de feminismo, deparo-me com O Diabo, de Leon Tolstói, cuja temática polêmica do conto, o impulso sexual desenfreado dos homens, vai na contramão a tudo o que é defendido por elas. Eugênio é um rapaz que sofre por conter um imenso impulso sexual, mas por também considerá-lo inadequado. O Diabo é um dos contos mais famosos do Tolstói.

O conto nos narra inicialmente o desespero de Eugênio por sentir desejo sexual, segundo ele em demasia, mas como não quer decepcionar a familia, no caso seu pai e seu avô nunca se envolveram com as camponesas, fica desolado. Mas ele pede a Danilo que encontre uma camponesa, mas justifica-se afirmando que é um caso de saúde. Danilo encontra uma moça que vai e se deita com Eugênio de bom grado. Aos poucos o rapaz percebe que a moça é casada com o filho de um dos seus empregados e fica bastante envergonhado. Mas como é questão de saúde ele continua, lembrando-se sempre que quando fosse casar tudo terminaria. Chega a hora do casamento. Eugênio casa com Liza e tudo parece bem. Mas o moço começa a ver a camponesa nos momentos em que precisa vistoriar a fazenda. O impulso de deitar-se com ela é tanto que o rapaz entra em desespero. Até que toma uma terrível decisão…

A escrita do conto é bastante linear, sem muitas complicações. O tempo é mostrado segundo os acontecimentos narrados por um narrador em terceira pessoa, mas que conhece todos os pensamentos do personagem principal. Este é bastante complexo em sua construção, onde o leitor percebe o desespero do rapaz e passa a também ansiar por esse momento.

Tolstói fala em seus diários, segundo sua biografia, que também passa por esse terrível sentimento que perpassa todos os homens segundo o autor. Acho que na verdade perpassa todas as pessoas… Mas naquela época, o autor ainda via a mulher como algo apenas para o amor e filhos, não para divertimento. Sua esposa, inclusive, também confirma seu conceito ao dizer que sente nojo do marido ao descobrir suas paixões pelas camponesas da fazenda.

A ansiedade causada por paixões fora do relacionamento oficial ainda hoje perpassa-os como um problema. O ser humano sente o impulso do prazer de uma forma bastante forte, mas as convenções da sociedade nos dizem que precisamos ser fortes e dizer não, principalmente nós mulheres.

Ainda não possuo opinião formada sobre o assunto, mas percebo o quanto o tema do conto ainda hoje nos é atual. Peço que as feministas entendam o contexto da época e percebam Eugênio como um ser humano. Suas ansiedades e dúvidas são as de qualquer ser humano, seja ele homem ou mulher. Quaisquer outros modos de ver, para mim, seria um anacronismo com o autor e sua obra.

Os cadernos de dom Rigoberto, Mário Vargas Llosa

anna

Todos sabem o quão é difícil escrever ou falar acerca de um livro com a qual se gosta muito. É o caso desse livro…

Os cadernos de dom Rigoberto é uma continuação de um romance anterior chamado Elogio da Madrasta. Infelizmente, só soube disso quando já o havia começado. Mas a leitura fora de ordem não atrapalha a apreciação da obra. Nesse, Lucrécia é uma jovem senhora que passou a morar com uma empregada, logo após sua separação com dom Rigoberto. A causa aparentemente teria sido as estripulias de seu enteado.

As obras são a inserção de Llosa no mundo das obras eróticas, e não podemos afirmar que foi uma iniciação sutil, como descreve a contracapa do livro.

O mais interessante é a mistura de gêneros que Llosa usa no romance. O tal caderno de dom Rigoberto traz diversos contos, narrativas e ensaios, onde podemos “ouvir” a voz do personagem-escritor. Durante a presente obra, dom Rigoberto não aparece nas cenas, apenas o vemos através de seus escritos. Ali também podemos conhecer uma Lucrécia sensual e submissa às fantasias de seu marido. Até onde irá essa face dela?

Logo no início, percebemos a malícia com que Fonchito age com a madrasta. E a grande discussão aqui seria se a infância é de fato esse reduto da inocência como Rousseau quis que nós acreditássemos. Ou será essa a grande fábula que nos foi contada no século passado?

Deixo a vós leitores apenas com questões e nada mais…

Memórias de Duas Jovens Casadas, Balzac

anna

Balzac não é um dos meus escritores favoritos, mas reconheço sua importância e sua influência sobre os outros escritores. Sua maior contribuição foi a forma que retratou a sociedade da época. O realismo encontrado em sua obra é utilizado como instrumento para sua crítica social. Crítica essa a uma sociedade que via o sistema monárquico ir e a sociedade burguesa nascer.

A novela epistolar Memórias de duas jovens casadas nos apresenta a troca de cartas de duas jovens amigas confidenciando-se acerca das mudanças que ocorreram em suas vidas ao saírem do convento onde moravam, situação comum a jovens nobres. Algumas cartas também mostram a troca de cartas entre as mesmas e seus pretendentes e/ou maridos.

Luísa de Chaulieu é uma moça que recebe uma grande quantia de herança e passa a ir em busca do seu grande amor. Já Renata de Maucombe, procura a estabilidade do casamento. Apesar de nos parecer estranho, o casamento nada tinha a ver com amor naquela época. Luísa é vista por Renata como uma tola criança, pois ela bem sabe que uma mulher tem certas responsabilidades perante a família. Esta, aceita casar com um homem mais velho, pois precisa do dote para o irmão. Sua família pertence a nobreza e esta necessita ajudar a manter a família casando-se com um burguês. Luísa encontra um grande amor na figura polêmica de um professor espanhol, mas seu casamento é cheio de amarguras, pois o ciúme é seu principal companheiro.

A discussão entre a importância do amor perante a estabilidade do casamento é feita sempre pelas duas moças. Renata aparece muito mais feliz, apesar de só sentir amizade pelo marido, que a ama muito. Já Luíza age o tempo todo como uma menina inconsequente, bobinha. Eu tendo a achar menos dolorido o relacionamento por amizade. Mas percebo as alegrias e angustias de ambas as situações. Além disso, há uma discussão acerca do quanto o ciúme por destruir um relacionamento. Luíza, assim como a classe nobre, ainda não estava preparada para o amor.

Balzac continua atual depois de muitos anos. A leitura apesar de arrastada e lenta, é bastante divertida. Será que ainda hoje há espaço para essa discussão? Amor ou estabilidade? Acho que a França pós-napoleônica não está tão longe assim de nós…

A história do olho, Bataille

ÍndiceA primeira coisa que me chamou atenção nesse livro foi a relação entre a capa e o título. A malícia implícita própria do autor que escreve acerca do erotismo em ensaios teóricos acerca da temática. Confesso que tal relação me deixou perplexa ao descobri que o livro fora escrito no século XIX.

Logo nos primeiros capítulos, as cenas que presenciei causaram-me espanto. Não achei nada de escandaloso, mas fiquei imaginando a reação das pessoas ao lerem tais cenas. O narrador revela-nos sua idade e compartilha conosco sua angústia, palavra utilizada pelo próprio. A pouca idade do narrador demonstra que estamos vendo um adolescente descobrindo a sexualidade. A palavra Angústia fez-me refletir, pois penso que o autor queria nos mostrar que sexo era para o menino uma necessidade, assim tais vontades e atitudes não poderiam ser reprimidas.

A escolha das palavras denotam uma importância bastante metafórica, pois tais léxicos são relacionados para muitas pessoas a imoralidade, mas no contexto descrito elas mostram a naturalidade com que o autor abordou tal tema. A palavra Cu, por exemplo, é descrita por ele como sendo a mais bela entre as palavras. A relação entre Cu e Olho que o autor faz é bastante interessante.

A linguagem do autor é agressiva, mas coloca o autor dentro de uma cena crua e nua, literalmente. O leitor também é bombardeado por situações deveras chocantes para pessoas mais sensíveis.

As demais protagonistas Simone e Marcela parecem ser bastante antagônicas, mas somente aparentemente.  A relação entre as meninas, ambas de 16 anos, assim como o narrador, é bastante ambígua. Inicialmente, me parece ser de repulsa, pois Marcela parece ser uma mocinha bastante inocente, mas ao adentrar no mundo erótico de Simone e seu amigo, a menina passa a ter reações no mínimo exaltadas.

Simone ao contrário de Marcela, já demonstra ousadia desde o primeiro ato que presenciamos. E a cada atitude sua ficamos cada vez mais abismados com a naturalidade da menina. A descoberta do corpo feita por eles ganha um tom bastante depravado aos olhos de seus pais.

As figuras metafóricas do livro são bastante interessante. Podemos ver a obsessão do narrador e de Simone transparecer também quando viajam para Espanha. A menina conhece um homem que procura fazer todas as suas vontades, assim o autor leva os dois adolescentes as mais chocantes cenas. Sua excitação é levada a limites bastante discutíveis.

Bataille me levou a repensar muitas questões em relação a obsessão e a obscenidade. Levou-me a pensar acerca do início da puberdade. E acima de tudo me levou a perceber meus limites e a forma como encaro sua linguagem. Bataille é um autor para quem gosta de Literatura Erótica de verdade!

Travessuras da menina má, de Mário Vargas Llosa

Mário Vargas Llosa chegou há pouco tempo em minha vida e já arrebatou-me. Sua escrita, suas escolhas lexicais, seus personagens, suas histórias fizeram com que eu descobrisse o que o mundo havia descoberto em 2010, ano em que o autor ganhou o prêmio Nobel de Literatura.

Travessuras da menina má me parece ser seu livro mais famoso. Talvez porque conte uma história de amor. Apesar de os amantes relatados não serem personagens comuns do gênero. Ricardo e a menina má vivem um relacionamento bastante conturbado.

Logo no início do livro conhecemos Ricardo através de suas lembranças deIMG_20150413_220238[1] adolescente no bairro de classe alta Miraflores. O menino era tímido, mas possuía um grupo de amigos no bairro que era bastante tranquilo. Até que chegam duas irmãs do Chile que causam curiosidade nos meninos e receio nas meninas. As chilenitas se mostravam meninas modernas, pois andavam rebolando e usam roupas bastantes ousadas para a idade. Ricardo apaixona-se pela mais velha Lily. Eles andavam juntos como namorados, mas a menina nunca aceitou namorar com ele. A partir daí, Ricardo e a chilenita irão se reencontrar várias vezes.

A menina má age de uma forma bastante livre. Quanto a isso, não vejo problemas. Mas ao contrário de muitas pessoas, não senti empatia pela personagem. A forma como ela tratava o Ricardito me incomodou bastante. Não concordo com a relação feita por muitas pessoas de que uma mulher livre necessariamente precise tratar os homens como se eles fossem apenas objetos. As ações dela abrem uma discussão acerca do feminismo e da transgressão feminina. Lily seria uma mulher transgressora ou apenas uma mulher má?

Ricardito é um rapaz encantador, doce e apaixonado. Seu sonho é viver na cidade de Paris. Ele realiza seu sonho e torna-se tradutor já que sempre gostou de estudar línguas. Uma das partes mais interessantes é seu relato acerca do processo de tradução de textos literárias em russo.

O romance é narrada pelo próprio Ricardo, que nos conta sua deturpada relação de amor com a menina má. Suas lembranças e sentimentos vão nos dando peças do quebra-cabeça que é a personagem. O leitor precisa reconstruir a menina má através dos relatos de Ricardo. Fiquei me perguntando se ele seria um narrador infiel, mas a sutileza com que ele fala dela, sem agressões, sem repreensões, pode nos mostrar que Ricardo talvez a tenha amenizado, em vez de deturpar sua imagem.

O autor também toca em pontos da história peruana através do contato de Ricardo com seus parentes que continuam em Lima. Ele relata como a ditadura pesou na história peruana e como seu povo sofreu por conta dela. Também a desesperança da população diante dos problemas políticos. Outros temas abordados pelo autor passam pelo início da AIDS, pelo movimento hippie e outros assuntos ocorridos entre as décadas de 60 a 90.

A escrita de Llosa é enormemente influenciada por escritores franceses. Sua paixão por esse escritores e pela capital francesa é bastante visível. O erotismo por exemplo é fruto de sua admiração por Bataille e Sade.

Eu simplesmente amei cada cena, cada parte do livro.

Livro: Travessuras da menina má

Autor: Mario Vargas Llosa

Editora: Alfaguara

Tradução: Ari Roitman; Paulina Wacht.

Rei Lear, Shakespeare

As peças do Shakespeare não são fáceis, mas exercem um fascínio nos seus expectadores e nos leitores há vários séculos. Harold Bloom em seu livro “Shakespeare: A invenção do Humano” chegou a afirmar e defender que Shakespeare criou o conceito de homemdownload que nós conhecemos hoje. Qual seria a explicação do sucesso?

Shakespeare cria personagens que a partir de agora passam por transformações. Isso pode parecer comum hoje, mas na sua época foi revolucionário. As epopéias, tragédias e comédias antigas possuíam personagens arquetípicos, onde suas ações eram baseadas em características absolutas. Vejam o caso do jovem Aquiles, suas ações são baseadas em coragem e heroísmo. Ninguém pensaria o personagem descobrindo que não quer mais ser herói e passando por uma mudança de perspectiva. Já os personagens de Shakespeare mudam, refletem, transformam, como é o caso do nosso Rei Lear.

A tragédia inicia nos contando como o Rei Lear testa o amor de suas filhas e onde apenas Cornélia admite que ama o pai apenas como filha e nada mais. O Rei irritado deserda sua favorita e faz dela banida. O duque de Kent intercede pela moça e também acaba banido do reino. Mas este volta como Caio e oferece seus serviços ao confuso rei. Suas outras filhas tramam fazer de seu pai caduco pelas suas costas, mas o rei não acredita quando sabe dos seus planos.

O personagem mais interessante é o bobo, onde suas reflexões e piadas trazem a luz o que ocorre nos bastidores do reino. Ele surge como uma espécie de consciência para o pobre Lear. Ao passo que suas falas são os trechos cômicos da peça, também os são os trechos mais filosóficos. Suas reflexões ocorrem em momentos onde o Rei deve pensar e refletir acerca do que faz. É através dessas reflexões que o Rei Lear se apercebe da traição de suas filhas. E o mais interessante disso tudo é que nesse momento de lucidez do rei, o bobo tem sua voz calada dentro da trama.

A mudança de perspectiva do Rei Lear é bastante inovadora e diferente para época. Podemos perceber um pequeno traço do conceito de homem moderno, traçado por Shakespeare muito antes da Modernidade surgir. Além de engraçada e triste, a peça “Rei Lear” é bastante reflexiva acerca da morte, da velhice, do amor parental.

Excelente começo para adentrar a obra imortalizada de Shakespeare!

Editora: LP&M Editora