A Liberdade guiando o Condenado

Direitos Humanos, Democracia, Feminismo, Liberdade. Temas de grande impacto na atualidade. Temas de grande importância e de importante discussão. Temas que refletem um mundo de opções. Temas, cujas opções são espelhos, onde nos vemos a nós. Temas formadores de Ego. Temas capazes de entorpecer e confundir.

França, 1830. Auge da Revolução Francesa. Homens, mulheres e crianças lutando lado a lado em busca de direitos, de voz, de liberdade e de reconhecimento. Uma mulher, de braço erguido, empunhando a bandeira nacional, tendo seu pé à frente, com os seios a mostra, aponta o caminho olhando seu batalhão surrado e maltrapilho a lhe seguir, a única personagem de merecido destaque, iluminada o suficiente para que todos a vejam, que a desejem, que lutem por ela. Seu nome? Liberdade.

poussin123A tela de Eugène Delacroix (1798-1863), A liberdade guiando o povo (1830), tornou-se um marco para a Arte, que levantava questões de cunho social em parte da Europa Ocidental, além de seu enquadramento técnico (sombreamento, definição de contornos, plano de fundo etc.). O romantismo social francês ganhava forças à medida que importantes personalidades atuavam nos campos artísticos, políticos e filosóficos. Victor Hugo (1802-1885) foi autor de belos poemas e destacadas peças teatrais, mas seus romances formaram seu nome ao longo dos séculos. Obras como Os Miseráveis (1862), Os Trabalhadores do Mar (1866), O Homem que Ri (1869) entre outras mais, compõem seu material literário de aspecto social. No entanto, para este momento, para o qual estamos em grande conflito, abordar O Último Dia de um Condenado (1829) parece ser aquela onde a “liberdade” está para ser questionada.

Bicêtre.

Condenado à morte!

Já se vão cinco semanas que convivo com tal pensamento, sempre só com ele, sempre petrificado por sua presença, sempre encurvado sob seu peso!

Outrora, pois me parece que faz anos e não semanas, eu era um homem como outro qualquer. Cada dia, cada hora, cada minuto tinha sua idéia. Meu espírito, jovem e rico, era repleto de fantasias. Divertia-se em expô-las a mim, uma depois da outra, sem ordem e sem fim, bordando com infindáveis arabescos esse rude e frágil tecido da vida. Eram moças, esplêndidos mantos de bispo, batalhas vencidas, teatros cheios de barulho e de luz, e então mais moças e tranqüilas caminhadas noturnas sob os espessos galhos das castanheiras. Era sempre festa na minha imaginação. Eu podia pensar no que quisesse, era livre.

Agora sou cativo. Meu corpo está atado a grilhões em uma masmorra, meu espírito está preso a uma idéia. Uma horrível, sangrenta, implacável idéia! Restou-me apenas um pensamento, uma convicção, uma certeza: condenado à morte!

O que quer que eu faça, ele está sempre ali, esse pensamento infernal, como um espectro de chumbo a meu lado, solitário, ciumento, afastando qualquer distração, face a face com minha pessoa miserável, e sacudindo-me com duas mãos de gelo quando quero desviar a cabeça ou fechar os olhos. Ele se insinua sob todas as formas em que meu espírito gostaria de se esconder, mistura-se, como um refrão horrível, a todas as palavras que me dirigem, cola-se comigo nas grades hediondas de meu calabouço; importuna-me quando estou acordado, espreita meu sono convulsivo e reaparece em meus sonhos sob a forma de uma lâmina.

Acabo de acordar aos sobressaltos, perseguido por ele e dizendo a mim mesmo: ‘Ah! É só um sonho!’ Ora, antes mesmo que meus olhos pesados tenham tido tempo de se entreabrirem o suficiente para ver esse pensamento fatal inscrito na terrível realidade que me envolve, na laje úmida e enfadonha de minha cela, sob a pálida claridade de meu candeeiro, na trama grosseira da tela de minhas roupas, sobre a figura sombria do soldado de guarda cuja cartucheira reluz através da grade da masmorra, parece-me que uma voz já murmura em meus ouvidos:

– Condenado à morte!”

Direitos humanos, Democracia, Feminismo: Liberdade. Não, não se trata de a obrao-c3baltimo-dia-de-um-condenado-victor-hugo retratar um amargo período da História, os sangrentos abalos da lâmina ferina, da pena de morte como solução lamentável de uma situação crítica. Trata-se, antes, dos amargos julgamentos estabelecidos em sociedade, dos sangrentos abalos de nossa arma mais letal, a palavra. Trata-se, enfim, da atualidade presente nos gritos desse condenado à morte.

A história, narrada em primeira pessoa, é contada como uma espécie de epístola por um prisioneiro condenado à morte. O estilo, tão presente e tão vivo (como aconteceu com o jovem Werther, de Goethe), aproxima o leitor dos relatos da personagem. Esta é sua última semana e, nesta, já sem esperanças, conta os percalços que vive até o momento que lhe separa da realização da pena. Não há nada que revele seu crime, como lá chegou, mas lá está privado de “liberdade”.

Então, que fazer? Temo-lo tão próximo, mas o quanto dele nós podemos confiar? O que nos dá total segurança de dizer juntos, à leitura da obra, “condenado à morte”? Sim, pois é através da leitura que firmamos o pacto com a “liberdade”. Liberdade de fazermos o que quisermos, sem pensarmos nas conseqüências de nossos atos. A pena de morte não é admitida no Brasil, mas quantos desconhecidos já legamos ao fatídico destino? Certos de que a morte é nosso fim mais preciso o que faz de nós sermos capazes de antecipá-la a alguém?

A resposta já a temos: a palavra. A única guilhotina resistente ao tempo, capaz de fazer vir à tona eventos de séculos tão distantes. A única capaz de jogar o outro à fogueira, levar à forca… A única com poder suficiente de nos dar liberdade. Liberdade de sermos intolerantes, de acusarmos o outro por um defeito de cor, por uma religião distinta, por uma verdade não-identificada pelo eu e, portanto, tornada falsa. Quem são os condenados? Ora, basta que nos deparemos com o primeiro espelho a nos mirar. Todos nós somos condenados. Condenados à morte!

Caímos, por vezes, no grande equívoco de achar que somos os primeiros a pensar determinados questionamentos, a querer encerrar a crise nacional (e por que não mundial?) com a força de nossos braços, e, agora, com a rapidez e engenhosidade de um clique. Nada mais natural. Os louros são colhidos por nós, que sequer vivemos um terço dos nossos antepassados. Lutamos a mesma batalha? Obviamente que não. Mas devemos ser capazes de reconhecer que não somos originais.

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