Novembro – Gustave Flaubert

Não vemos aí Flaubert. Quero dizer, não se vê nesta obra vestígio algum daquele visto em Madame Bovary (1857). Mas, vamos lá, é preciso reconsiderar os clangores desafinados dedicados a esta sinfonia do amor platônico.

Assim afirma à sua amante, Louise Colet: “Novembro foi o fecho da minha juventude.”eccdeadf-f98f-43d6-908c-74d6a1a38f94 Fato. Quinze anos após esta escrita Flaubert lança seu grande romance. Entretanto, por não ser de Emma que falamos, voltemos ao caso: Gustave tinha apenas vinte anos de idade quando escreveu Novembro (1842). Detalhe: a obra fora a última a ser lançada. Seus amigos e críticos o motivaram a publicá-la ao término de sua redação, mas ele não a quis. Preferiu deixá-la guardada por mais alguns anos. Sorte que ninguém a esqueceu, pois este é o passo a passo do desenvolvimento da escrita do autor.

A obra literária confunde-se com a própria vida do autor, pois muitos dos caminhos percorridos pelo narrador inicial – são dois – também foram traçados por Flaubert anos depois, como uma previsão.

Um caso interessante também se desenvolve com relação ao seu labor artístico. Percebemos durante a leitura que as palavras ainda não são as trabalhadas com bastante afinco do seu projeto das palavras exatas – Le mot juste. São várias as passagens que o narrador evoca sonhos mirabolantes, paradoxos constantes etc. Mas é daqui que nasce Marie, uma prostituta infeliz, fonte de prazer e sensualidade, mas ao mesmo tempo sensível e sofrida com as experiências vividas com outros homens. A mulher que irá percorrer toda a vida e obra do autor, concebendo, portanto, a Sra. Bovary.

Os narradores que nascem – e morrem – ao longo da narrativa são fundamentais. O primeiro, em primeira pessoa; o segundo, em terceira, apresentando o posfácio do primeiro. Flaubert opta por tal decisão a fim de aprimorar o seu estilo de escrita, algo que podemos de chamar de “transição”. Nas palavras de Sérgio Medeiros, tradutor e apresentador da Introdução desta edição:

“Escrito sem maiores dificuldades e contendo numerosas passagens autobiográficas, esse livro talvez pudesse ser considerado como uma obra de transição entre a escrita fácil e a difícil, entre o autor visível e o invisível, cujo ocultamento mais radical será logrado apenas em Madame Bovary e em ‘Um coração simples’, obras da maturidade.” (p. 10)

Dessa forma, é possível discernirmos sobre a existência de dois Flaubert’s, antes e depois de Madame Bovary?, é o que nos questiona Sérgio Medeiros. Tiremos nossas conclusões.

 

P.S.: A edição conta com as cartas enviadas a Louis Bouilhet, seu amigo e crítico, que não foram lidas e, portanto, não referenciadas por este que vos escreve. Em outro momento dedicar-me-ei a elas, com possível exposição no blog. Ça va?

REFERÊNCIA

FLAUBERT, Gustave. Novembro, seguido de Treze cartas ao Oriente a Louis Bouilhet. Tradução, introdução e notas de Sérgio Medeiros. SP: Iluminuras, 2000.

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