S. Bernardo, Graciliano Ramos.

s.bernardoCoincidentemente, S. Bernardo aborda em sua temática a mesma contida em A Revolução dos Bichos, de George Orwell, livro que li há pouco e achei interessante mencionar. Ambos tratam das questões políticas, embora Orwell, a meu ver, trate a respeito, de uma forma mais geral, do estado de calamidade entre o oprimido e o opressor. Graciliano, no entanto, é um caso em particular. Em verdade, Paulo Honório é um caso em particular.

O romance, as lembranças de Paulo Honório, narrador-personagem e escritor do próprio livro, passa-se no município de Viçosa, Alagoas. Sua linguagem convém perfeitamente com o ideal de Graciliano, uma linguagem sertaneja, com um estilo abrutalhado singular. Paulo Honório, homem interiorano, orgulhoso de suas conquistas e da terra onde se criou, acaba por se tornar mais um dono de terras envolvido com a politicagem local, tendo que lidar com pessoas e pessoas, de má fé e boa índole, para poder seguir no comando da tão sonhada fazenda S. Bernardo.

A história é composta por juízes de direito, vigário, redatores de jornais etc., bem como de manipulações de voto, críticas à ordem vigente, onde manda quem pode, obedece quem tem juízo, difamações confundidas com liberdade de expressão etc., etc. E, claro, a moça bonita por quem seu Paulo desperta interesse.

Carrancudo que só ele, Paulo Honório alega que não há melhor educação que a trabalhada no braço, despreza a escola em sua estrutura física e teórica, e que a literatura não leva ninguém a lugar algum. A vida vivida, para ele, é a melhor das escolas. Sobre a literatura, pergunto-me sobre o que ele pensa do livro que está escrevendo. Lorota? Idiotice? Não sei. Nem bem cheguei ao final do livro.

* * *

Suspeito de que o livro seja um relato de como sua vida foi por água a baixo depois que se casou com a moça bonita, Madalena, que era comunista e materialista histórica, sem ele saber, que acabou se metendo em suas posições de fazendeiro, “interferindo nos negócios”.

* * *

De fato, a mulher contribuiu para a sua derrocada, mas não somente. Uma revolução fora iniciada, o partido que apoiou perderam, amigos próximos o abandonou, o dólar subiu de cotação, a safra não rendeu, enfim, S. Bernardo entrou em crise.Photo0047

Um dos capítulos que julgo de maior importância é o último, tanto quanto o 19º. É o extremo humano de Paulo Honório: um homem que trabalhou uma vida inteira, que comeu o pão que o diabo amassou, e vê este mesmo diabo arrastar-lhe tudo o quanto um dia conseguiu. Dessa forma, Graciliano Ramos nos mostra em seu romance que a crise do homem, em seu eterno questionar-se sobre o porquê de sua existência, não é somente um privilégio do homem urbano, acostumado à agitação da cidade. É um privilégio daquele que se questiona, do homem que tem sua terra invadida ilicitamente, não por castigo de ter feito o mesmo, mas por saber que assim é a vida, e por isso sofrer tão amargamente.

Bibliografia

RAMOS, Graciliano. S. Bernardo. RJ: Editora Record, 2005.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s