Crime e Castigo, Fiódor Dostoiévski.

Durante entrevistas concedidas aos apresentadores de televisão e outros meios comunicativos, Mario download (1)Sergio Cortella, renomado filósofo, escritor, educador, palestrante e professor universitário brasileiro, explica de maneira simples e didática a respeito do conceito de ética.

“Ética é o conjunto de valores e princípios que você e eu usamos para decidir a três grandes questões da vida, que são: quero, devo, posso.
[…] Tem coisa que eu quero, mas não posso; tem coisa que eu posso, mas não devo; tem coisa que eu devo, mas não quero. […] Você tem paz de espírito quando aquilo que você quer é o que você pode e é o que você deve.”

Todos os nossos movimentos refletem nessas questões básicas. Uma escolha qualquer aponta considerável e, talvez, unicamente em nossa moral. A personagem do seguinte romance sabe muito bem o que isso significa.

Um estudante cometeu dois homicídios: ao primeiro o fez intencionalmente; ao segundo, um ato falho e um crime inesperado. Entretanto, diante dos fatos, não considera o que fez um crime, e sim um favor.

“… matou, mas se considera um homem honrado, despreza as pessoas, anda por aí como um anjo pálido.”

E agora?

20150213_124311Rodion Románovitch Raskólnikov, um dos personagens mais emblemáticos do meio literário, composto por Dostoiévski, vive o suplício de não saber o que fazer. Abandona a faculdade por não ter como se manter, vive como inquilino em um pequeno quarto alugado, em São Petersburgo, há tempos atrasado; desempregado, alimenta-se daquilo que a cozinheira e única empregada de sua senhoria lhe serve. O pouco dinheiro que consegue o tem em virtude de uma velha usurária, penhorando quase todos os seus pertences. Esta pequena burguesa se aproveita, com muito atrevimento, do jovem devedor, dando-lhe apenas alguns míseros copeques. Raskólnikov é um estudante obstinado e sério, mas ao deparar-se em tal circunstância, sujeitando-se a humilhações, vê-se desesperado e procura agir com indiferença em várias situações, mas fica perdido e acaba confundindo a si mesmo sobre o seu futuro.

Em crise, procura (e encontra) uma solução para resolver seu problema. Encontra-se com a velha usurária e a mata com golpes de machado. Eis o crime. No entanto, a irmã da velha, que nada tinha a ver com o momento, também acaba sendo assassinada, perturbando os planos de Raskólnikov. Eis o castigo.

Na verdade, o castigo vem logo em seguida. Pensando que todos da cidade são conhecedores não somente do que houve, mas de quem o fez, Raskólnikov adoece por muitos dias, tem acessos de fúria com os que se preocupam com sua doença e fica delirando por achar que está abandonado, sozinho com suas divagações.

Um dos pontos altos da trama (talvez o mais interessante de todos) envolve uma discussão em torno de crimes e criminosos e um artigo feito por Raskólnikov, onde ele divide os indivíduos em “ordinários” e “extraordinários”. Para Porfiri Pietróvitch, juiz de instrução de Raskólnikov, os “extraordinários” “têm o direito de cometer toda sorte de crimes e infringir a lei de todas as maneiras precisamente porque são extraordinários.”. Raskólnikov considera sua teoria como uma prática, até, às vezes salvadora para toda a humanidade.

Raskólnikov, perdido e doente com suas circunstâncias (e aqui eu faço alusão ao conceito de Ortega, onde diz: “eu sou eu e minha circunstância, e se não salvo a ela, não me salvo a mim.”), justifica sua atitude a um feito de Napoleão. Ele diz que não matou um ser humano, e sim um “piolho”, uma praga do meio social.

Diante de tantos tormentos e angústias, Raskólnikov confessa seu crime para a polícia. É condenado, castigado, mas tem a remissão do seu crime pelo amor. Entretanto, este tema é parte de outro relato, pois o que se envereda na obra já está concluído.

Numa narrativa fantástica em terceira pessoa, o gênio da literatura russa do século XIX (pelo menos pra mim), Fiódor Dostoiévski, põe em xeque a questão do indivíduo no seio da modernidade em mais esta obra magnífica, Crime e Castigo, apelando para aspectos éticos e morais, revelando um contraste nos novos pensamentos da humanidade: o niilismo e a necessidade da fé.

Bibliografia

CORTELLA, Mario Sergio. O que é ética? In: https://www.youtube.com/watch?v=vjKaWlEvyvU.

DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Crime e castigo. Tradução, prefácio e notas de Paulo Bezerra; gravuras de Evandro Carlos Jardim. São Paulo: Ed. 34, 2001.

ORTEGA Y GASSET, J. Meditações do Quixote. São Paulo: Livro Ibero americano, 1967.

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